“Há uma tradição cristã que vê a cidade com uma dupla face: a Babilónia, o orgulho, o querer afrontar Deus na realização técnica. A outra metáfora é A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, a sociedade ordenada, com uma capacidade de organização que valorize o homem e permita a sua realização, a solidariedade, a conjugação das tarefas. Essa dupla face da cidade mantém-se toda a Idade Média. Na actualidade, poderíamos também ter as duas metáforas como modelo: Corbusier e outros arquitectos que pensaram as coisas em termos urbanísticos quereriam dar realidade à concepção de Santo Agostinho. Mas o que a realidade nos mostra é a megapolis, as cidades desenvolvidas quase sem limites, como São Paulo, Bombaim ou outras. E o homem perde o domínio, a sua capacidade de construir um lugar onde possa viver em toda as suas virtualidades, na solidariedade.”
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Quebra de silêncio para atentar no que pode ser o homem dentro da cidade
O deserto iluminado
“Há uma tradição cristã que vê a cidade com uma dupla face: a Babilónia, o orgulho, o querer afrontar Deus na realização técnica. A outra metáfora é A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, a sociedade ordenada, com uma capacidade de organização que valorize o homem e permita a sua realização, a solidariedade, a conjugação das tarefas. Essa dupla face da cidade mantém-se toda a Idade Média. Na actualidade, poderíamos também ter as duas metáforas como modelo: Corbusier e outros arquitectos que pensaram as coisas em termos urbanísticos quereriam dar realidade à concepção de Santo Agostinho. Mas o que a realidade nos mostra é a megapolis, as cidades desenvolvidas quase sem limites, como São Paulo, Bombaim ou outras. E o homem perde o domínio, a sua capacidade de construir um lugar onde possa viver em toda as suas virtualidades, na solidariedade.”
José Mattoso em entrevista ao Público, 29/04/12
“Há uma tradição cristã que vê a cidade com uma dupla face: a Babilónia, o orgulho, o querer afrontar Deus na realização técnica. A outra metáfora é A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, a sociedade ordenada, com uma capacidade de organização que valorize o homem e permita a sua realização, a solidariedade, a conjugação das tarefas. Essa dupla face da cidade mantém-se toda a Idade Média. Na actualidade, poderíamos também ter as duas metáforas como modelo: Corbusier e outros arquitectos que pensaram as coisas em termos urbanísticos quereriam dar realidade à concepção de Santo Agostinho. Mas o que a realidade nos mostra é a megapolis, as cidades desenvolvidas quase sem limites, como São Paulo, Bombaim ou outras. E o homem perde o domínio, a sua capacidade de construir um lugar onde possa viver em toda as suas virtualidades, na solidariedade.”
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Bom fim de semana, boa semana!
Longe da multidão que enlouquece...
Durante alguns dias, com o meu Platão e a sua "República" a recato no alforge, andarei por aí, a meditar o sofrimento em que vivemos, a tragédia do mau governo, a mudança urgente, imperiosa, inevitável -ou naufragamos, apagamo-nos, tornamo-nos cinza...
E, atendendo aos preços da gazolina e do anti-ecológico gasóleo, vou de burro, animal amigo e confidente, com certeza capaz de nos guiar melhor dos que lá estão e se têm por racionais (santa ignorância, wishfull thinking!), se chamado ao poder...
Até à volta e... coragem, amigos!
Durante alguns dias, com o meu Platão e a sua "República" a recato no alforge, andarei por aí, a meditar o sofrimento em que vivemos, a tragédia do mau governo, a mudança urgente, imperiosa, inevitável -ou naufragamos, apagamo-nos, tornamo-nos cinza...
E, atendendo aos preços da gazolina e do anti-ecológico gasóleo, vou de burro, animal amigo e confidente, com certeza capaz de nos guiar melhor dos que lá estão e se têm por racionais (santa ignorância, wishfull thinking!), se chamado ao poder...
Até à volta e... coragem, amigos!
E o governo decreta a fome...
"O fado português", versão Passos Coelho
in Público de hoje
ler e abrir também:
"Dormem na rua para poupar dinheiro nas compras"
in Jornal de Notícias de hoje
quinta-feira, 26 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
O Teatro Municipal da Guarda, peça única da nossa Cultura, faz hoje 7 anos!
O TMG
Parabéns: e boa sorte!
Porque, neste momento e aos olhos deste governo, a palavra Cultura é blasfémia...
E, de facto, a Guarda, a Beira Interior, Portugal, devem ao TMG a reafirmação da Cutura no nosso país, a divulgação da mesma e o aparecimento de novos talentos.
Devemos-lhe todos nós e em toda parte muito -muitíssimo!
Parabéns amigos do TMG! Bem hajam! E que os deuses vos protejam..., as boas fadas não deixem que vos silenciem!
terça-feira, 24 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Um abraço grande para todos os amigos que, hoje, se lembrarem de mim... e eles sabem porquê...
Sé da Guarda
Este símbolo (símbolo da Guarda)
é aquele que escolho para ilustrar o dia de hoje, mais um,
talvez mais importante..., na minha viagem através da vida...
Quem já não tolera somos nós!
Isto é fascismo... e de analfabetos e ladrões, a roubar e ofender! Os piores que tivémos de governos desde 25 de Abril de 1974!
“PSP tem tolerância 0, no dia 25 de Abril”
dos jornais
“PSP tem tolerância 0, no dia 25 de Abril”
dos jornais
Erro: é o povo roubado,
humilhado, explorado, que não tolera abaixo de zero a repressão da LIBERDADE!
.
A França exige o fim do mau governo
"Basta!", gritaram os franceses
As razões que levaram e vão levar Sarkozy à derrota?
Saltam à vista:
Os franceses
cansaram-se do abandono e da culpabilização dos mais pobres; do insulto aos
desempregados, que são considerados vigaristas; do insulto aos trabalhadores
que são considerados “uma despesa”; do insulto aos funcionários públicos que
são considerados em número desnecessário...
Os franceses denunciam
a desigualdade:
os ricos apropriam-se,
cada dia mais, dos bens produzidos e os pobres são, cada dia mais, mais pobres.
Os franceses denunciam
a precaridade:
desemprego e desqualificação
social crescem vertiginosamente
Os franceses denunciam
a pobreza:
o número de pessoas em
plena miséria e à beira da fome aumenta todos os dias.
Le Front National, Marine
Le Pen e os seus 18,01&...?
Ilustra o descrédito de
uma política que não consegue nem resistir nem ultrapassar a crise mundial;
ilustra o descrédito dos políticos papa-açorda, que não aquecem nem arrefecem.
É uma ameaça?
Sem dúvida: a ameaça do
regresso aos partidos de extrema-direita, populistas, neo-fascistas e
xenofobistas, que se desenha por toda a Europa.
p.s. não reconheces, no
protesto francês, coisas que te afligem, agora e aqui, amigo?
domingo, 22 de abril de 2012
Durango, outra cidade vítima da fúria franquista
Cruz de Kurutzeaga, cruzeiro gótico, Durango, Viscaya, País Basco (Espanha), reviu-se no massacre fascista de 1937
“Guernica tornou-se símbolo emblemático da fúria e da
desumanidade de Franco. Só por este caso da Guerra civil de Espanha, Franco e
os seus correligionários deveriam ser julgados por crimes de guerra contra a
Humanidade.
Todavia, em nome da verdade Histórica, ali ao lado, a 20 Km.,
está uma pequena cidade que fora mais castigada e que se chama Durango.
Estive lá e ouvi testemunhos.
Um abraço de José Manuel Romana”
Hoje passam 75 anos sobre o bombardeamento de Guernica
Os crimes do franquismo: Guernica, após o bombardeamento por aviões alemães, da Legião Condor, tropas de apoio aos revoltosos fascistas comandados por Franco
Abre:
Por amor
"São Martinho e o pobre", 1317-19, fresco de Simone Martini (Siena, 1280/85-Avignon, 1344)
Neste
tempo de peste e desencanto, é urgente a palavra que dê sentido ao dia de
hoje e nos levante a alma.
E vou
buscar, a Claude Roy, a passagem, que aquece por dentro:
“Um
santo que me toca: o pároco de Ars***. Diz ele que se, no fim da vida, acontecer
aperceber-se da inexistência de Deus, há-de sentir-se logrado, mas não
lamentará ter acreditado no amor.” (in Les rencontres des jours, Gallimard,
1975).
***http://en.wikipedia.org/wiki/John_Vianney
O pároco d'Ars foi, também, uma das fontes de inspiração de Georges Bernanos, para o seu grande romance, Sous le soleil de satan
sábado, 21 de abril de 2012
Mélenchon socialista que assusta meio-mundo...
Jean-Luc Mélenchon em campanha eleitoral
in Público de hoje
O Público, "jornal de referência", consegue o que parecia impossível: pôr um trotskista a comandar os comunistas...
Segundo o Público, Mélenchon, que o Público definiu, há dias, um trotsquista, encabeça os comunistas franceses...
“Jean-Luc Mélenchon
representa os comunistas e parte da extrema-esquerda. Foi o fenómeno das
eleições presidenciais francesas e quer roubar o terceiro lugar a Marine Le
Pen.”
in Público de hoje
O Público, "jornal de referência", consegue o que parecia impossível: pôr um trotskista a comandar os comunistas...
Segundo o Público, Mélenchon, que o Público definiu, há dias, um trotsquista, encabeça os comunistas franceses...
Eis o que faria
Trotsky dançar de alegria no túmulo e punha Estaline a roer os próprios ossos
no mesmo lugar...
O Público esquece a verdade essencial: Mélenchon é um socialista de esquerda, que mandou ás ortigas a “terceira
via” de Blair & Cia e congrega aqueles que estão fartos de chás de tília e
conivências com o capitalismo financeiro.
Mélenchon não vai
ganhar as eleições; talvez consiga um significativo 3º lugar, que, a acontecer,
obrigará o provável vencedor, François Hollande (PS), a repensar muitas coisas...
Mas conseguiu criar o
pânico na direita neoconservadora e desmascarou muitos pseudo-sociaisdemocratas
e neo-liberais “moderados”...
E conseguiu arrancar a
discussão da democracia às assembleias privadas dos políticos “especializados”
e trazê-la à praça pública.
Bem haja!
Faz do teu país um país feliz: recusa a tortura em que os dias se transformaram!
As ilhas abençoadas: "Tahiti", óleo de Paul Gauguin
Homero evoca, na Odisseia (IX, 109), as ilhas da felicidade, as ilhas bem-aventuradas, as ilhas abençoadas...; e diz:
“Vamos aos campos úberes, às Ilhas Afortunadas; todos os
anos, a terra, sem ser cultivada, é rica em trigo; a vinha, sem que a
trabalhem, prospera; os ramos das oliveiras frutificam e nunca secam; os figos
amadurecem e embelezam a árvore que dispensa enxertia; o mel brota do coração
dos carvalhos; e a água fresca desce, cantando, do alto das montanhas.”
Erasmo, que também, no Elogio da Loucura (I-VIII), refere
essas ilhas, assinala:
“O trabalho, a velhice e a doença não existem por lá”.
Santo lugar, santa vida!, pensas tu, meu amigo.
E tens razão: vivemos noutra ilha e de outra maneira, carregados
de trabalhos injustos, a envelhecer vertiginosamente, cobertos de chagas e sem
meios para as curar.
Em dois mil anos, construímos uma sociedade absurda –e letal.
Eis-nos na ilha desaventurada, tornados escravos de
plutocratas e a queimar, gastar, estragar os nossos dias, sempre curtos demais,
porque a vida é um instante e, José Marmelo e Silva dixit, “a nossa única
oportunidade cósmica”.
Agora, aqui, e do modo como conduzem os governantes as coisas
da república, a sociedade transforma-se num inferno -e a sermos exemplo de
alguma coisa, somos o exemplo de como um povo não deverá comportar-se: sofre e cala-se.
Emigrar não basta: é uma fuga (ainda que, muitas vezes, seja inevitável...),
e, se emigrarmos, o mais certo será continuarmos a dar com os burrinhos na
água podre do sistema social monstruoso que se deixou alastrar: aquele em que o
homem se entroniza na condição de assassino do homem.
Ressalvando: certos emigrantes encontrarão sociedades mais conscientes e mais prontas a corrigir erros.
É a questão cultural -e, por cá, Cultura, eis a palavra que o governo excomunga mais do que Maomé excomunga o presunto...
Ressalvando: certos emigrantes encontrarão sociedades mais conscientes e mais prontas a corrigir erros.
É a questão cultural -e, por cá, Cultura, eis a palavra que o governo excomunga mais do que Maomé excomunga o presunto...
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Perfume de mulher
"Vénus e as três graças, entregando um presente a um jovem", 1484-1486, fresco de Sandro Botticelli, Museu do Louvre, Paris
“Para que querem as jovens mulheres perfumes, se delas
próprias eles emanam?”
Xenofonte in Banquete
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Passaram 69 anos sobre a revolta do gueto de Varsóvia
19 de Abril de 1943: os judeus do gueto de Varsóvia revoltam-se contra as tropas alemãs
Prisioneiros judeus, durante os combates
Prisioneiros judeus, após os combates
No final do combate, Hitler mandou arrasar o Gueto
Para saber mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gueto_de_Vars%C3%B3via
http://pt.wikipedia.org/wiki/Levante_do_Gueto_de_Vars%C3%B3via
A moral exemplar, segundo Gaspar
Hoje, Alto da Fontainha, Porto
"Toda a zona da Fontinha, no Porto, esteve cercada pela polícia, que iniciou a operação de despejo da antiga escola primária do Alto da Fontinha, cerca das 10 horas."
in Jornal de Notícias de hoje
Aperfeiçoando a lição moral, justa e orgulhosamente atirada à cara do Mundo e do FMI pelo ministro Gaspar, a fim de que aprendam
Aqui eu sugiro, ao ministro Gaspar, as medidas seguintes que maravilhariam não apenas o mundo: fascinariam o Universo:
privatizar a Presidência da República,
privatizar o governo,
e mais ainda, para espantar mais ainda os que nos fitam com olhos deslumbrados:
privatizar o Banco de Portugal,
privatizar a Justiça
privatizar as Forças Armadas
privatizar a GNR
e, para “arrendondar”, vender o Pálácio de Belém, a Torre de Belém, o Palácio de Queluz, a Torre dos Clérigos, a Torre da Universidade de Coimbra, as Capelas Imperfeitas, o Museu da Arte Antiga, etc., única maneira de ganhar alguma coisa com a Cultura,
e vender o Algarve, para recuperar o que se está a perder no turismo.
Já agora, aproveitar a onda para sugerir vender os pobrezinhos, os desempregados e os idosos, que só dão despesa.
Mas tudo me leva a crer que isso consta já da “agenda” de Gaspar...
Ri, se te alivia...
...nas mãos de um cego que se passeia, alegremente, entre ruínas...
"Vítor Gaspar foi à sede do Fundo Monetário Internacional dizer que Portugal "dá uma lição moral"", diz, ao FMI, o ministro das finanças, Vítor Gaspar
in Público de hoje
**************************************
Gaspar reafirmou, com o desplante e a irresponsabilidade que o caracterizam, a incompetência...
...e a cegueira: Portugal arde e o ministro das finanças julga que pode continuar a atirar petróleo para o fogo...
Palavras acerca do que é inadiável...
O que diz a personagem João Trigueiros, em Vidas São Vidas (2º edição aumentada com Rascunhos para o 6º volume, 1973, Brasília Editora), ou o que diz Régio pela boca de João:
“Creio que toda a vida lutei por uma coisa, meus amigos, embora com desvios e fraquezas, altos e baixos. Também estive no ponto em que mais ou menos Vocês estão hoje, e supus que antes de mais era preciso libertar o homem das misérias materiais que rebaixam tantos... das injustiça sociais flagrantes... da tal exploração do homem pelo homem com fins egoístas... E é! já não podemos fingir que ignoramos isso!... e nem sequer os homens de amanhã, até de hoje, suportarão o que durante séculos suportaram tantos...”
quarta-feira, 18 de abril de 2012
As palavras não chegam
Letras podem ser tretas...
Os grandes livros não têm palavras. Isto não é malabarismo mental
nem passe de magia, de vendedor da banha da cobra.
O que eu quero dizer é o seguinte: os grandes livros são aqueles em
que as palavras se apagam
Complicado, à mesma?
Explico (se conseguir...): os grandes livros são aqueles em que as
palavras se limitam a comunicar a riqueza do texto.
Por isso elas se apagam e o leitor não anda a dançar nelas, sobre um
vazio.
O vazio é quando, realmente, quem escreve não tem nada para dizer
mas sabe juntar palavras bonitas, esquisitas... às vezes, exóticas...
E o leitor, também às vezes, cai na esparrela, ou porque se basta
assim, ou porque tem medo de confessar que não lhe interessam –
que não encontra, nesses livros, nada.
Tem medo de que o julguem parvo.
O mercado está cheio de livros que são só palavras: centenas de
páginas, milhares, só com letras.
Já imaginaram os milhares de árvores que foram sacrificadas?
Acontece encontrarmos livros com coisas importantes, profundas,
apaixonantes, dentro.
Mas é cada vez mais raro.
Especialmente, entre nós.
Porque eu não busco coisas profundas em segunda mão –livros onde
o autor se vale dos Mestres que cheirou e disfarça o que lhes rouba
e apresenta-o como seu.
Porém, todavia, contudo..
Há tanto a dizer! Fica para outro dia.
Até à próxima!
Reedição, pela Antígona, de um livro tragicamente actual
"Se a liberdade tem um sentido, ela representa o direito de dizer às pessoas aquilo que não querem ouvir", George Orwell
Bom dia com um poema muito belo
Pousa as mãos doridas na pedra
Que desigual aflora
Na terra adormecida, regada pelas lágrimas
Do tempo. Pousa
Olha. Sonha duramente a distância
Cativa
- Pélago da alma transfigurada
E justa. Pousa
O peso da vida na paisagem deserta
Das tuas mãos doridas...
Quando vier
Simbólica, cruel, a que se elege,
Leito de pedra, pluma,
Planta, gazela, olhos tranquilos líquidos,
Repousa.
Ruy Cinatti in O Livro do Nómada meu Amigo, 1958
terça-feira, 17 de abril de 2012
O milagre dos dias
"Primavera na floresta", 1882, óleo de Isaac Levitan (1860-1900)
“Os encontros dos dias trouxeram a frescura à minha via.” Eis a resposta do sábio Kirman ao discípulo que lhe perguntava pelo segredo da sua inalterável juventude. Desde há setenta e sete anos que o sábio meditava no seu Tratado da infinidade de Deus.
“Os encontros dos dias trouxeram a frescura à minha via.” Eis a resposta do sábio Kirman ao discípulo que lhe perguntava pelo segredo da sua inalterável juventude. Desde há setenta e sete anos que o sábio meditava no seu Tratado da infinidade de Deus.
“Contemplei a sabedoria divina e louvei Aquele que é a Salvação”, continuou Kirman, “mas soube, também, colher o prazer do perfume das violetas de Deilam, sorrir às raparigas de Chiraz, matar a sede nos versos dos trovadores de Hafiz e alegrar-me com o que imaginava, diante do fulgor das joias da noite ou a ler um livro cheio de luz. E, ao pôr do sol, agradeço a Deus, que me propiciou os mil encontros dos dias”.
Ubayd- I Zakami (1300-1371)
(Epígrafe de Les rencontres des jours, de Claude Roy, Gallimard, 1995)
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Regresso ao reino cadaveroso
Cultura, ensino, investigação? Fechadas a sete chaves, porque mordem.
António Sérgio***, um dos nosso grandes ensaístas, incrivelmente esquecido, dizia (e publicaria), em 1926, à beira do terrível desastre –do 28 de Maio- que nos atirou para o obscurantismo, nos mandou de volta ao “reino cadaveroso”:
“(...) o que importa não é a sabença, mas o contribuo da busca para a libertação do espírito”.
Sérgio evocava outro maior, Garcia da Orta****, a quem chama de “inquiridor de verdades”, cuja liberdade de pensamento e a argúcia de cientista assustaram a tenebrosa Inquisição, que o perseguiu, ao ponto de o condenar... depois de morto.
A “sabença” é dos “doutores da mula ruça”, que se ficam nos dogmas e abdicam da busca.
A “sabença” é a paralisia do espírito; é deixar, sem se mexer, que o tempo passe e o homem avance; é temer tudo quanto abale o mundo mesquinho, onde guarda o timorato as castradoras certezas, protectoras da própria covardia espiritual.
A “sabença” é a pobreza que nos condenava a ser chamados, lá fora, no séc. XVII, os “índios da Europa”, tal qual referiu outro português de vistas largas, Duarte Ribeiro de Macedo*****, e Sérgio cita.
O volume dos ‘Ensaios’, de António Sérgio, o II, que seguimos, foi já publicado no exílio de Paris, em 1928.
E não admira: o ex-seminarista de Santa Comba afiava os dentes e como poderia entender aqueles que tinham ido buscar estas palavras?:
“[o que importaria] seria a elevação e afinamento constante da própria actividade espiritual do homem; seria a ‘Cultura’, para o dizer de um golpe. O que mais vale, na investigação, é o trabalho do espírito sobre si mesmo, no esforço contínuo de se achar a si próprio (de descobrir o Espírito) no que não é espírito, -ou no que, pelo menos, parece não sê-lo. (...) O verdadeiro método do descobrimento pressupõe no homem que se consagra à busca, e para ela viva, -a atitude crítica, a problemática, a sinceridade absoluta para consigo próprio, da qual se segue como a noite ao dia (assim o diz Polónio na tragédia de ‘Hamlet’) a sinceridade para com os outros homens.”
Ora muito actual te deve parecer o discurso de Sérgio e temerás pelo retorno à condição de “índios da Europa”.
A Cultura, o estudo, a investigação –interessam os batedores do neo-capitalismo fianceiro que nos governam?
Tudo nos faz crer que não interessam nada e que nos arriscamos a ver reconstruir um outro Reino Cadaveroso, assente na ignorância e na resignação pasmada.
Não por acaso, talvez assim já seja: um homem culto é um terrorista, aos olhos dos que instalam, pouco a pouco, ou, melhor, escandalosamente rapidamente, uma sociedade de privilegiados e de novos escravos -de plutocratas e de pobre gente.
***http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_S%C3%A9rgio
****http://pt.wikipedia.org/wiki/Garcia_de_Orta
*****http://pt.wikipedia.org/wiki/Duarte_Ribeiro_de_Macedo
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