domingo, 24 de maio de 2009

O dia de hoje... segundo Afonso Duarte...




A imagem acima reproduz a capa da revista presença, nº 41-42, Maio de 1934. Lá fui buscar as seguintes palavras de Afonso Duarte, que profetizavam o mundo em que vivemos: uma farsa trágica, sem nada dentro e sem nada fora, uma bola tonta, pejada de gente abandonada ao vazio espiritual e aos especuladores, que fazem a miséria e a fome:

O homem é, na verdade, e como nunca, uma inquietação universal.
E quem a criou?
O imprevisto desenvolvimento das técnicas, as maquinarias, a arte do engenheiro e a ciência do físico -dizem- e porque isso não foi acompanhado do necessário aperfeiçoamento social, -porque deixaram o homem para trás e com fome. Criou-se a questão económica e nela querem ver todo o mal estar social. Claro –como ouvi dizer um dia a uma mulher do povo –
quando a gente não tem nada é que o juízo se lhe vira... Mas o juízo virado que o mundo actual nos apresenta deve buscar-se antes no ritmo dinamogenizante do progresso mecânico em desequilíbrio com o espiritual”.

O progresso foi e é o de Tempos Modernos, de Chaplin: o homem comum transformado numa roda da grande máquina que alimenta o canibalismo da minoria privilegiada. O mundo do homem retransformado em escravo e vazio como uma pipa furada. Do homem sem horizontes: roubaram-lhe alma, tempo de amar e viver, realmente. Do homem entregue à agonia antecipada. O tempo do frenesi frenético da ganância apontada à conquista do lucro –arrancado aos cadáveres de biliões de pessoas. Afonso Duarte, o humaníssimo poeta da Ereira, sabia-o: isto não é progresso –é um crime, uma monstruosidade: a que pariu esta crise.

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