domingo, 31 de maio de 2009

Escrever riscar eternidade (atenção ao post scriptum)


1. 'O homem escreve, inscreve o voo das aves na pedra dura'. A frase abre, essencialmente, o livro do tempo, Escrevo Risco (luzlinar/Bosq-ímanos), de Américo Rodrigues. É uma pequena obra, cheia de coisas –sobretudo, o combate do homem mortal e do universo infinito, feito de coisas mínimas e sagradas, essenciais, uma delas ele próprio. Escreve, risca, grava, vai fixando o tempo, onde tudo, afinal, já está inscrito: 'Descobri que nas minhas mãos está tudo escrito', há-de concluir. Jorge Reis (arranjo gráfico) e Zigud (capa e contracapa) excelentemente entenderam do que trata. O muito belo relato/poema da experiência milenária não se apresenta, assim, nem se desdobra, por acaso. A vida e a prática do caçador dos instantes cujo sentido tenta revelar no acto de os assinalar e fixar -surpreender- vai-se apresentando, enquanto lemos. E é a nossa curiosidade solidária (participamos da interrogação) que empurra, em diálogo, o movimento e lhe dá a forma que já existia e se refaz em nós.

2. 'Tenho pressa de escrever seja o que for o que dança na minha cabeça; deixo a minha memória impressa nas pedras porque sim' -antes que se apague. Nada escapa à eternidade impassível. Diz a Génesis: 'a terra era vã e vazia e as trevas cobriam a face do abismo'. A terra não pode ser vã e vazia, porque a Génesis também diz: 'o espírito de Deus era levado sobre as águas'. O artista/poeta 'arrisca uma palavra' e, depois, outra, e outra. O poeta é levado pelo espírito de Deus, que está na coisas: em todas as coisas. E arrisca, escreve. Gesto ancestral, ânsia e alegria: chamar ao firmamento Céu e à luz dia e sentir que isso é bom. Para sempre.
p.s. às 22.21- na antepenúltima linha, julgo que teria dito melhor o que penso, se, em vez de E arrisca, escreve. lá pusesse E aposta, escreve. Todos os escritos, inscrições, riscos -são apostas...




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