quinta-feira, 7 de maio de 2009

A Mulher Nua -V



Era rude, mas ela começava a fazer-lhe perder a paciência. Aquela mulher escapava-lhe. Simples, escondia-se. E, depois, não era tão simples, com as suas manias, com os seus mistérios. Com os seus silêncios. Aceitara-a, como se habituara a aceitar: que a pintura não se vendesse, Veneza, o desaparecimento dos amigos. A passagem do tempo. A morte das ilusões. Habituara-se. E por que não havia de aceitar aquela mulher, caída sabia lá ele de onde? Não aceitara ser uma pessoa normal? Mais ou menos normal... Os outros não achavam isso, quando o viam a gastar os dias nas taberninhas de Veneza. E, no entanto, ele esforçava-se por não incomodar ninguém. Por que não dessem por ele. Era a segurança. Era a maneira de viver. Mas, nem dessa maneira o aceitavam. Ou era ele que pensava que não o aceitavam, porque era ele que não os tolerava? Às vezes, via-se ao espelho, num café qualquer, e o aspecto chocava-o: um homem instalado no próprio egoísmo, na obstinação de pensar em si, de prescindir do resto. Os outros eram o resto... Frieza, triunfo, secura... Quando se assumiam, os outros passavam a ser o resto. E vinham-lhe arrepios: ele também assumira esses valores, desistindo. Porque desistira? A desistência, a indiferença, a distância cultivadas eram uma forma de triunfar? De se desobrigar? Mas, às vezes, pesava-lhe. Depois, fazia por esquecer. Sempre detestara as pessoas insossas, a protegerem-se, a cuidarem-se, e sem darem nada. Uns pobres de Cristo. A semente a morrer-lhes nas mãos. Nunca os absolvera. Quisera outra vida, e afinal... triunfara, ao contrário: separando-se. Mas, de si mesmo não podia separar-se. Lembrava os anos de Castelfranco Veneto, a infância, a adolescência. Os pais envelheciam, na casa, a terra, uma pequena casa de dois quartos, a cozinha, a lareira, o estábulo, quase pegado, onde o único cavalo envelhecia. Havia uma vinha e um pomar. Nada chegava. O pai não queria -ou não sabia- fazer outra coisa. Recordava a sua raiva, quando as coisas não corriam bem. Uma vez, encontrou-o furioso, a puxar pelo cavalo.
-Nem este anda!
E apareceu a mãe, que ajudou o pai, e foram, pelos campos, a empurrar a besta, até que os perdeu de vista. Nunca o esqueceria, obstinados e frágeis, na esteira do animal cansado.
A mãe era uma mulher inteligente, boa. Ele chegou, um dia, muito tarde a casa, suado, os olhos a arderem. Ela abriu-lhe a porta. Teve vergonha e esquivou-se, encostou-se à parede. A mãe sorriu e disse:
-Os artistas são assim...
Brilhavam-lhe os olhos, doces.
-Doidos... Diferentes...
Quando o pai se zangava, ou desesperava, porque não ganhava o dinheiro suficiente, ela girava-lhe à volta.
-Deixa lá...
Ele sofria.
No fim do dia, ela preparava o jantar. “Era tão bonito!”, pensou Giacomo. Punha-se a mesa, traziam-se os pratos, abriam-se as garrafas. Acendiam-se as velas.
-Não queres mais? -perguntava-lhe ela, com medo que ele ficasse com fome.
E o pai:
-Deixa o rapaz! Ele já sabe o que quer!
O seu gesto era acariciar o braço do marido e dizer-lhe:
-Amanhã vamos às amoras...
Ele sorria-lhe e, a brincar, respondia:
-Às amoras?... Às cerejas!
Havia, na quinta, amoras e cerejas perdidas que ela, às vezes, colhia.
Crescera naquele mundo, à procura de outro mundo. Acabado o liceu, fora para Veneza onde estudara pintura, na Accademia. Aos pais custou-lhes aceitar. Pintor não era profissão. E o futuro? Mas, amavam-no, filho único, ajudaram-no. Julgou sentir, neles, esperança.
No dia da partida, à lareira, o pai perguntou-lhe:
-Nunca mais voltas?...
Acendeu um cigarro e, a compor a lenha, acrescentou:
-Ficas por lá?
Agora olhava para ele, inquieto, com um sorriso triste, e Giacomo reparou que a mão lhe tremia.
-Volto...
O pai tossiu, mudou de posição, e fez o que nunca fizera: puxou-o para si e acariciou-lhe os cabelos.
-Que Deus te proteja!
Não voltara, ou, por pouco tempo, uns dias.

Sem comentários:

Enviar um comentário