À cautela, foi buscar a garrafa e serviu-se.
-Como é?... De onde é que vens?
Ela apontou para a janela.
-Do céu?!
Ela abanou a cabeça, a dizer que sim.
Enquanto bebia, espreitou-a. Era impossível: não tinha asas e aquele era o último andar, o quinto, do Palazzo Carminati, em S. Stae. Não podia ter caído do andar de cima, não havia. Nem do tecto. Nem havia nenhuma escada de socorro. Como é que ela tinha ido parar ali?
-Vieste de avião?
Respondeu-lhe:
-Venho da Suécia.
-Da Suécia? Está bem. Mas tens de te vestir...
-Como?
-Como as pessoas!
Hesitou, a olhar para a pena branca, caída ao lado dela.
-...Com a roupa das pessoas...
-Chega isto...
Sentia-se bem, assim. Agarrara os joelhos e virara-se para o aquecedor.
-Tu é que mo deste... Não me queres aqui?
Queria-a. Bem bastava o frio, os quadros que não vendia.
-Podes ficar... Mas...
Ela estremeceu e ele julgou que ela podia pensar: «O quê? Caí aqui, estou gelada, sozinha, sem penas, nem sei onde estou. Nem sei quem tu és, nem o que me vai acontecer...» E viu-a de outra maneira, frágil, com o roupão vermelho, o rosto imaculado, os olhos verdes e as mãos brancas a agarrarem os joelhos. Assustou-se.
-Tens de te vestir...
Ela olhou-o, com uma grande tristeza, e perguntou-lhe:
-Queres que eu seja uma pessoa?
-Não és?
Ela sorriu e chegou as mãos ao lume.
-Se tiver de ser...
-Podes ficar assim, só com o meu roupão...
Olhou, de revés, para a janela. Tinha medo que ela se fosse embora.
-Obrigada. És um pintor?
-Um ex-pintor.
Ela levantou-se, deu uma volta pelo quarto e mexeu nas telas encostadas às paredes.
-São bonitos os teus quadros...
-Achas?
-E este: por que é que não o acabaste? -perguntou, diante do cavalete abandonado.
Ele fingiu que não a ouvira e serviu-se de mais aguardente.
-Está um frio de rachar! Tens a certeza que não queres beber nada?
-Como é que te chamas?
-Giacomo. Giacomo Zurlini. E tu?
Ela hesitou.
-Não sei...
-Greta?
-Greta? Sim... Greta.
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