segunda-feira, 11 de maio de 2009

O calor humano

Em 2003, quando terminava a minha missão diplomática em Marrocos, escrevi estas linhas cuja actualidade, se pode inquietar (o Médio-Oriente é um vulcão, às vezes, adormecido, outras vezes, letal; o confronto ocidente/islão continua, no fio da navalha), por outro lado, julgo que poderá alimentar a esperança. O segredo talvez esteja, realmente, na nossa vontade, na vontade de todos de aceitarmos aqueles que são diferentes de nós -e isso é urgente, exige-se a todas as partes.

Paul Bowles, nas memórias, “Without stopping” (“Sem parar”), aponta a regra do bom viajante: “Em Marrocos, eu queria ver as coisas acontecerem como se não estivesse lá” -ao invés do camarada de aventuras que, diz o escritor, “esperava modificar tudo, no sentido conveniente”. Bowles respeitava os outros; o companheiro queria impor-se-lhes. A imposição fecha a abertura e, carentes dela, confinamo-nos, não recebemos, nem oferecemos. O mundo é do tamanho dos olhos de cada um, escrevia Branquinho da Fonseca; notava Montaigne que a viagem é o viajante. Tudo depende, pois, da liberalidade do olhar e da riqueza interior, da aceitação, compreensão -em suma: de sairmos de nós, rejeitarmos as defesas que tudo limitam.

Vim despedir-me de uma cidade bela e única, espelho da lhaneza muçulmana: Essaouira ou Mogador, cujo nome berbere, o segundo, terá originado a portuguesa Mogadouro (e não o contrário), quando encerro a minha actividade, no estrangeiro, iniciada há vinte e nove anos. Conheci terras, gentes e culturas. Aquilo que melhor aprendi? Ouvir os mais, respeitar as diferenças. Não fosse assim, estaria eu, hoje, tal qual estava, antes -e anquilosado, encravado no egoísmo, faltar-me-ia o calor humano, que aquece estas ruas e este espaço únicos.

Apanágio das cidades marroquinas e do espírito muçulmano, tolerante de raiz. É urgente apontá-lo porque se trava, algures, no mesmo espaço árabe, uma guerra desumana -e “a apocalipse é cega”, sublinha Claude Lanzmann, autor de “Holocausto”.





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