segunda-feira, 4 de maio de 2009

A Mulher Nua -III

À hora das lojas abrirem, foram comprar roupa. Tinha-lhe emprestado umas calças e, quando começou a vestir-se, ele voltou-se para a parede. Ela ficou com as calças enfiadas até aos joelhos, e perguntou-lhe:
-Por que é que te viraste?
-Estás a vestir-te.
-Já me viste nua...
-Mas agora estás a vestir-te -e não se mexeu enquanto ela não acabou.
Saíram, ela com o roupão encarnado e as calças de veludo azul, ele com uma gabardina verde, que lhe chegava aos pés. No patamar, esbarraram na lareira.
-Ai! -gritou ela, que bateu na pedra.
Giacomo, a desculpar-se, disse:
-Nunca a acendemos...
-Mas magoa...
Deu-lhe o braço e ajudou-a a descer as escadas. Viram o canal gelado, o passeio deserto e uma gaivota em cima de um caixote do lixo, a arfar.
-Isto está mau -disse Giacomo
-O quê?
-Está frio! -respondeu, a esfregar as mãos.
-Deixa lá! -exclamou ela e fez-lhe uma festa nas barbas. As unhas arranharam-lhe a cara.
-Tens umas unhas duras!
-É da natureza!
-Qual natureza?
-A minha
-A tua?
Não sabia onde a levar. Tinha de lhe comprar roupa...
-Olá! -disse o vizinho do lado, o pintor Gastone, que vinha a cair de bêbedo- Com que então uma sueca?
Ele não respondeu e puxou-a, com medo que o outro a atropelasse.
-Anda sempre assim? -perguntou Greta.
-Não. Só às vezes...
A gaivota fugira assustada e a manhã envolvia a cidade, branca, azul. Os canais gelados reflectiam a luz e seguiam as casas cinzentas de portadas verdes.
-Piccolo mondo... -murmurou Giacomo.
-O quê?
Ele não respondeu. Abraçou-a e disse-lhe:
-Vamos...








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