sábado, 30 de maio de 2009

As cidades mortas


Lugares cujo interesse histórico, arquitectónico, a singularidade do perfil levam a que se considerem património mundial, procurando evitar a sua degradação ou ruína. Assim acontece? Com certeza? Claude Lévy-Strauss já alertou: “Nem tudo quanto inscrito no amplo inventário do “património da humanidade” o foi por razões puras”. O aviso abre espaço à seguinte pergunta, oportuníssima: classificam-se esses sítios com desejo de preservar a qualidade –ou de alargar o elenco turístico e, no fim e ao cabo, transformar esses lugares em fontes de rendimento a correrem, sobretudo, para os bolsos daqueles que lá não vivem?

Não se põe em dúvida a importância da medida nem as vantagens múltiplas que acarreta. Nem se põe em dúvida os benefícios do turismo. Põe-se em dúvida a honestidade das intenções. Saturados e desacreditados certos “tesouros” (o Algarve, por exemplo), buscam-se outros? Nada melhor do que o exótico com selo de garantia -“património da humanidade”- arrancado, manhosamente, à UNESCO. Vende-se a lebre e comercializa-se o coelho.

Salta aos olhos que a preservação de tal património implica a preservação e dignificação das culturas que lhes deram origem. Não creio que o propósito assista a quantos, depois, os exploram. Defende-se a qualidade ou criam-se jardins zoológicos? Defende-se o ambiente ou prostitui-se? Revivifica-se ou desertifica-se? É uma questão cultural, sabemos; mas sabemos, também, o respeito que há pela cultura.


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