sábado, 2 de maio de 2009

A Mulher Nua

“Quem encontrou uma mulher
encontrou a felicidade...” Prov. XVIII, 22


I

Acordou e viu-a agarrada à janela. As mãos abertas encostadas aos vidros, os joelhos no parapeito.
-Oh! Meu Deus! -exclamou, e sentou-se na cama. Do outro lado, ela ansiava, a olhar para ele.
-Deve estar gelada...
Não se mexia.
-Oh! Meu deus! -repetiu- Se cai?
Era Inverno, em Veneza. As águas tinham gelado e as ruas estavam desertas. Ouvia-se, apenas, o assobio do gaz no aquecedor e as unhas dela a arranharem o vidro.
-A esta hora! Às cinco da manhã!
Atirou com os cobertores e correu à janela.
-Quer entrar?
Não respondeu, sem tirar os olhos dele.
Abriu a janela e puxou-a para dentro. Ela ficou no meio do quarto, alta, os cabelos acobreados e o corpo branco. Viu que ele a observava e cruzou os braços, a esconder o peito.
-Como é que a vou vestir?...
Foi buscar uma camisola, mas, quando voltou, já ela estava agachada a um canto, parecia um animal assustado. Nos ombros, reparou, tinha penas.
-De onde é que vem este bicho?... -murmurou, porque não queria que ela ouvisse.
-Esta.
Sabia falar. Não a tocou, ainda que lhe apetecesse: era linda.
-Com certeza.
Ela baixou os olhos.
-Se não queres a camisola, há ali um roupão atrás da porta...
Ela levantou-se e foi buscar o roupão, vestiu-o e agachou-se outra vez.
-Queres um café? Deves ter frio.
Não queria. Chegou-se ao aquecimento e uma das penas brancas soltou-se e ficou caída no sobrado.
-Queres uma aguardente?
Ela não respondeu e enroscou-se mais, e sorriu-lhe:
-Não bebo aguardente...
-Ah!, então...
E fixou-a, hesitante. Viu-a bem: os olhos de pássaro, as penas, a maneira desajeitada de se enrolar: era um bicho, não havia dúvida.








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