sábado, 9 de maio de 2009

A Mulher Nua -VII




A roupa transformara-a, mas as pessoas continuavam a olhar para ela. A beleza, o alvoroço e a avidez com que se oferecia, perturbavam. Dentro do casaco branco, os cabelos que prendera, o vestido vermelho, a juventude -desequilibravam os outros. Nunca ninguém a tinha visto. Ao lado, Giacomo estava a mais. A ele conheciam-no: um pintor de Veneza, bolseiro da Fundação Bevilacqua La Masa, com o estúdio no Palazzo Carminati. E ninguém percebia onde a teria ido buscar, tão diferentes. Ela fresca e decidida, ele alheio. Ia ao lado dela, como se natural, e aquela mulher não era natural, exagerava, em cada gesto. Ou, talvez, os outros, que a observavam, achassem que ela exagerava, porque se tinham desabituado da espontaneidade. Giacomo acompanhava-a.
-Não conhecia esta cidade -disse Greta.
E parou e apontou:
-Aquela ilha?
-S. Giorgio Maggiore -respondeu Giacomo.
Iam pela Riva degli Schiavoni, e ele levava-a, sem saber onde.
-É linda! -exclamou Greta
-Nunca tinhas visto?...
-Como esta, não...
E, de repente, sentiu-se incomodado. Não lhe era preciso o entusiamo dela. Aquele piccolo mondo era, há muito, um mundo morto para ele. Há muito que se desinteressara. Raras vezes vinha até ali: deixava-se ficar entre S. Giacomo Dall’ Orio e S. Polo, ou, de noite, refugiava-se em Cannaregio, no Ghetto, até altas horas, sozinho, a queimar o tempo. Ela obrigava-o a reparar no que queria esquecer. Porque havia uma ferida qualquer, no fundo dele. E ela reabria-a. Diante daquela beleza, daquela harmonia quase fantástica, tomava-o a ideia de lhe ter passado ao lado, de não ter sido capaz -ou de não ter podido- agarrá-la. Aflorara-a, apenas, e logo lhe escapara a beleza. «Sabes o que é uma muher bonita? É bonita. E, depois, vai-se embora com a sua beleza.» -pensou.
S. Giorgio Maggiore. -repetiu.
Não tivera coragem? Deixara-se enlear no conformismo dos outros, desistira. Porque lhe era impossível pactuar com a hipocrisia. Mas, não se levantava contra a hipocrisia. Esquivava-a. «Esquivava tudo», pensou, «a duplicidade e a sinceridade, a vida mesquinha, coberta de mentiras, e o apelo da vida verdadeira, que se quisesse, se tivesse força para isso, podia encontrar a cada instante, na pureza do piccolo mondo».
-Mentiras...
E agarrou-a e beijou-lhe os cabelos.
-Olha, ali! -disse Greta.
Giacomo reparou nos barcos à vela a deslizarem sobre o gelo.
-Vês? Que maravilha!
-Há cem anos, ou mais!, que não acontecia... -murmurou Giacomo.
-Sim? É uma cidade única! Tão calma, tão doce...
-Engana...
Greta parecia feliz.
-Conheces outras?
-Passei-lhes por cima... Florestas, montanhas, cidades...
Ele chegou-a a si. Havia, nela, candura. Ou era a noite mal dormida? O desejo que ela despertava? A consistência do corpo dela?
-Tinhas lá amigos?
Ela deixou-se abraçar e respondeu:
-Amigos?
Ele corrigiu:
-Conhecidos.
-Amigos? Conhecidos? Sim, talvez...
Giacomo não disse mais nada. A vida dela era a vida dela, a vida dele era a vida dele.





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