É costume dizermos que há, sempre, um momento em que nos olhamos de frente, ao espelho, e perguntamos o que fizemos da nossa vida. No extraordinário O Pobre de Pedir, seu último livro, aliás, publicado póstumo, Raul Brandão interroga-se:
'A minha vida foi um simulacro? Criei um teatro, uma personagem, um histrião, que declama? Pois eu terei a morte ao meu lado e não terei vivido um único momento com sinceridade e ferocidade?'
e ainda:
'Se há uma vida espiritual, toda a frandulagem, todos os cacos, toda a papelada de que te rodeaste e em que te absorveste para esconderes a trágica realidade, é diante da morte lixo e pior que lixo.'
Há muitos anos, um homem encantador e discreto confiou-me obras de Raul Brandão: o Padre Pôpo, director da Biblioteca Municipal da Guarda. O livro que levei para casa chama-se Os Pobres cuja 1ª edição adquiri muito mais tarde e guardo, religiosamente. Inquietou-me e, por consequência, abriu as janelas do meu espírito. Com Dostoievski, seu primo desconhecido, e com outros que descobri, sozinho, na mítica Papelaria do Sr. Casimiro, Gorki, Gide, Steinbeck (lembram O Milagre de S. Francisco, poético, doce, solidário e cheio de revolta boa...), Roman Rolland (e o seu fantástico e fortíssimo Jean-Cristophe...), Raul Brandão foi anjo tutelar. Entre outras coisas, ensinou-me esta, que não se pode ignorar: somos responsáveis por nós próprios e temos uma única oportunidade para encontrarmos o nosso destino: durante a única vida que temos.
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