quarta-feira, 6 de maio de 2009

O dia de hoje...




Fui buscar à estante um livro de Raul Brandão: O Pobre de Pedir, 1931 (mas preferi a capa d' A Farsa, de Stuart Carvalhais; achei-a mais forte). É póstumo, cuidado pela mulher amada, Maria Angelina. Viveram, juntos, na Casa do Alto, Nespereira, perto de Guimarães. A casa ainda lá está, e um pouco deles. Maria Angelina diz, a abrir a obra: ‘há páginas, para mim, mais belas em dor, em humanidade, do que as de Dostoiewski”. Cegueira de amor? Engano? Que importa? A verdadeira, a grande Arte, a grande Poesia, a grande Literatura não é um campeonato. Mas ela fala de Dostoievski, que grafou como eu deixei ficar. Sim: os dois escritores têm laços que os unem: o espanto, a dor, o grito, diante de Deus –um Deus indecifrável, a que se entregam e acusam. De quê? Do sofrimento que impôs ao homem. Aproxima-os, também, a consciência, a obsessessão do mal, que nos trabalha –dos abismos abjectos a que descemos. Une-os o sentimento religioso da vida e a ideia do pecado. Raul Brandão, em O Pobre de Pedir, denuncia: ‘O meu verdadeiro ser não é aquele que compus, recalcando lá para o fundo os instintos e as paixões; o meu verdadeiro ser é uma árvore desgrenhada –é o fantasma que nos momentos de exaltação me leva a rasto para actos que reprovo’. E esse fantasma pode deleitar-se com a abjecção, gozar no mal... Lembram-se de certas passagens, de certas figuras d’ Os Irmãos Karamazov, de Aliocha, que se olha e confessa, aterrorizado e fascinado: ‘Eu também sou um Karamazov!’?

Raul Brandão um português; Dostoievski, um russo. A estranha afinidade! Os primeiros autores que, sempre, nos entusiasmarem, na adolescência e na juventude: os russos. Porquê? E por que motivo senti que não era um estrangeiro, quando visitei Moscovo, S. Petersburgo, quatro meses por terras longínquas?...

Raul Brandão: ‘Queixava-se (...), num mundo que parece desabitado e onde ninguém [nos] escuta. (...) Pior que o peso do mundo é a indiferença do mundo’.

A brutal actualidade. Agora, aqui, a farsa: a comédia trágica, que nos rói e em que vemos a pureza e a tememos, fugimos dela e nos entregamos ao trabalho monstruoso de a destruir... ‘O que há de belo num ser ignorei-o ou desprezei-o. Talvez fosse o que há de mais belo num ser que eu queria corromper e aniquilar’ –confessa uma figura de Brandão. As personagens, Raul Brandão vive-as dentro de si, os nomes podem repetir-se, as personagens podem repetir-se; aquilo que conta é a voz incomparável do poeta genial, que interioriza o drama das pessoas, o absurdo maravilhoso do mundo –e testemunha disso tudo. Não é um romancista. Os seus livros são monólogos geniais. É um demiurgo, um Poeta, que se sangra, em prosa imediata, carne viva.

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