quinta-feira, 7 de maio de 2009

António Nobre: quando a pomba é afinal uma águia



Há poetas que são a salvação do mundo. Falam-nos ao ouvido e lá vai essa voz, pela nossa vida fora. De noite, abrimos as janelas da alma, para não gelarmos no medo, e eis que chegam, com os versos, as palavras santas: “Georges! Anda ver o meu país de Marinheiros,/ O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!” E gostamos ainda mais da nossa condição: aventureiros. Há séculos que somos assim, entregues à loucura de poetas pobres. António Nobre, uma vez, assinou António Pobre. Mas os poetas nunca são pobres –não podem: trazem dentro a estrela: “Minha Madrinha, ajuda-me a sonhar!”, pedia o “purinho”. Somos um povo de sonhadores? Ou de suicidas, como assinalou Unamuno? Ou as duas coisas? Quem sonha mata-se? Foge à realidade, ao concreto? Onde está a realidade? Dentro da alma ou na rua? Raul Brandão diria que nos dois sítios. Provável. A vida criamo-la nós. Ou há vida sem os nossos olhos? Branquinho da Fonseca, aliás, o seu Barão, entendia que a vida é do tamanho dos olhos de cada um. António Nobre tinha-os tão grandes que vemos o infinito olhando para eles e para os seus versos. Longe, muito longe, nasceu um poeta muito amado: Pushkine, o poeta mais amado na Rússia. Antes de Nobre, que não sei se o leu. Do mesmo culto é objecto –como se fosse um santinho de trazer ao peito, bem encostado ao coração. Ontem e hoje. Quando a sorte me levou à Rússia, conheci jovens que o adoram, ouvi a homens maduros o mesmo entusiasmo, em tom especial, como se falassem de amigo único, dolorosamente perdido. Li Pushkine e lembrei-me de Anto. Lembrei Nobre porque a paixão dos russos só tem paralelo com a nossa, a candura, a saudade, que dizem “nostalguia” ou “taská”. Príncipes os dois –para quem os ama, e somos muitos. Num livrinho “António Nobre, em Paris, Só” (Caixotim), excelentemente apresentado por Paulo Samuel e Fernando Carmino Marques, espécie de preciosa antologia (acrescentada de inéditos) de cartas do poeta nos seus anos parisienses, encontrei este desabafo (Nobre dirige-se ao amigo dilecto, que um dia haveria de o renegar, Alberto de Oliveira): “a circunstância de eu ler menos do que tu e não me importar demasiadamente com o que os escritores -vocês- vão pensando da Arte e da sua evolução, para somente penetrar em mim e de mim tirar o que tenho cá dentro, leva-te a considerar-me apenas como um talento nativo que só produz o que a Natureza lhe semeou e nada do que influências estranhas poderiam semear também”. Nobre definia-se, mas Alberto de Oliveira ajuizara bem: Nobre era um poeta livre. João Gaspar Simões escreveu um ensaio perfeito, “António Nobre, Precursor da Poesia Moderna”, e lá diz: “Nobre não quer saber o que seja objectivar um tema segundo a tradição de uma poesia com leis, com normas, com métodos (...) como se apenas uma coisa lhe importasse no mundo: a sua própria maneira de contar. Melhor: o tom da sua voz. Não há na poesia portuguesa obra onde a música da voz do poeta esteja tão ligada às palavras”. Mas essa sinceridade, espontaneidade, era cuidadosamente vigiada e o poeta apresenta-se a Alberto de Oliveira como “engenheiro de Ideais”. Nobre sabia que a simplicidade exige esforço de inteligência. No meu saudoso Café Mânia, em Moscovo, amigos russos declararam-me que nenhuma tradução conseguiria transmitir a singeleza, transparência e beleza de Pushkine. Acredito. Há autores que é praticamente utopia tentar traduzir. No entanto, nas traduções que li, julgo haver percebido essas qualidades, que lhe garantiram a eternidade –e também o esforço para a harmonia capaz de fixar a essência. A essência que Nobre, séculos depois, repetiu (muito sua e inconfundível). Ambos se apresentam em carne viva –e quando o Artista vive naquilo que faz, está vivo para sempre e sempre actual. O romântico Anto, doce, melancólico, apaixonado do impossível, engana muito: não é uma pomba, é uma águia que impôs à morte material a imortalidade do Espírito.

p.s há quinze dias, em Braga, num encontro fantástico, que aconteceu no prodigioso Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, perguntaram-me pelo meu autor preferido: “António Nobre.”, respondi, “Tem dentro a alma portuguesa”.



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