quarta-feira, 13 de maio de 2009

O dia de hoje: Van Gogh, o meu cão Zac, Vicente Sanches, S. Pedro e S. Francisco



Em Maio de 1989, regressávamos a Portugal, parámos em Arles, e o meu cão Zac visitou, por conta sua, o hospital em que Van Gogh, cem anos antes, esteve internado. Isso não se pode considerar um acontecimento vulgar. Quantos cães visitaram aquele hospital de Arles? E, precisamente, quando se celebrava o centenário da estadia de Van Gogh, na cidade, onde teve um quarto (o da imagem acima), no Hotel Restaurante Carrel, e do internamento do pintor naquele hospital? Com certeza, muito poucos cães e, com certeza, nenhum cão, nenhum rafeiro da Giustiniana, bairro anónimo (agora, neste momento e por causa deste momento, já não é anónimo) junto da Via Cassia, Norte de Roma. Mas o Zac não era um cão vulgar. Meu filho Diogo encontrou-o, enroscado debaixo da mesa do café da Giustiniana e trouxe-o para casa. Apareceu-nos desgrenhado e sorridente -“Parece o Einstein!”-, olhos vivíssimos, sem cerimónias. A pedir para ficar e decidido a ficar. Como era. Um rafeiro, um cachorro da rua. Um vira-lata, diria o grande Manuel Bandeira. Toda a vida Zac recusou coleira ou pagar imposto: submeter-se. Era uma pessoa livre. Libérrima. Um simpático anarquista. Italiano vero, acabaria por transformar-se num apátrida ou multipátrias: viveu em Portugal, S. Tomé e morreu em Telavive, onde lhe chamaram várias coisas -príncipe, sábio, rebelde, houve mesmo quem disse-se: “um santo!”-, lhe reconheceram qualidades de poeta –poeta louco, poeta vadio, como todos os poetas.
O que levou Zac a ir espreitar o hospital de Arles? É provável que soubesse do génio de Van Gogh e da sua loucura –Zac sabia tudo: sobretudo, aquilo que nós não sabíamos nem nunca saberemos de ciência certa que ele sabia. Um príncipe? Um sábio? Um poeta? Um santo? Eis outra coisa que ninguém sabe nem nunca saberá –de ciência certa... Durante a sua dolorosa agonia, eu e o Manuel A. Pina trocámos mails e chorámos-lhe a morte. Provavelmente, o S. Pedro, de Manuel Bandeira, deve ter-lhe dito, à chegada: ´Zac, você não precisa pedir...”


E aqui é que vou citar o dramaturgo Vicente Sanches, que escreveu uma peça maravilhosa sobre Van Gogh (Américo Rodrigues apresentou-a, no Teatro Municipal da Guarda). Acredito que pouca gente conheça Vicente Sanches: os verdadeiramente importantes escritores portugueses (e estrangeiros) andam todos ou quase todos, acham que andam todos perdidos, esquecidos, ignorados pelo mercado (na feira da ladra literata) editorial, comentarial e critical nacional. Na peça, Vicente Sanches conta:

‘Um dia, no manicómio de Saint-Rémy, a Loucura de Van Gogh aproximou-se dele suavemente -(naquele dia foi suavemente,) (excepcionalmente, foi suavemente)- e pegando-lhe pela mão, disse-lhe com doçura: anda, vem, vou conduzir-te à casa dos teus pais; vou levar-te muitos anos atrás: - ao tempo da tua infância.
E ele foi; e viu lá tudo como era dantes. Viu-se lá a si próprio, dormindo num berço.
-Posso pegar-lhe um bocadinho ao colo?, perguntou Van Gogh à sua Loucura.
-Podes, respondeu ela.
Então ele tomou a criança nos braços, com muito cuidado: pois a criança estava a dormir, e ele não queria acordá-la.
Depois, com a criança ao colo, ajoelhou-se no chão; sempre com muito cuidado: pois a criança estava a dormir, e ele não queria acordá-la.
Depois, rezou. Rezou uma breve oração. Em voz baixa; em voz muito baixa: (pois a criança estava a dormir, e ele não queria acordá-la):
-Meu Deus, não deixes este menino ser eu... Meu Jesus, não deixes este menino ser eu... Minha Nossa Senhora, não deixes este menino ser eu...’

E -Sanches dixit- S. Francisco recebeu, com estas palavras, Van Gogh, depois dele se suicidar:

‘...o teu suicídio não foi pecado, -temos aqui os atestados médicos, -médico-psicológicos e médico-teológicos, -a atestarem que não foi pecado; o teu suicídio foi simplesmente o processo inocente, demente, genial e demente (demente e genial como tu eras, com tu foste;) o processo, enfim, que na grande violência da tua ânsia metafísica, ou na ânsia metafísica da tua grande violência, tu arranjaste lá na Terra, para arrombares mais depressa a porta aqui do Céu’.

Pois, lá no céu, Van Gogh e o cachorro Zac, a filosofarem...






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