Toda a “produção cultural” –fechemos os olhos e, por facilidade, aceitemos chamar-lhe isso- aponta ao lucro e assenta em sondagens (ou palpites) que envolvem o gosto (ou mau gosto, ou desgarrado gosto) predominante. Os “consumidores” (assim entendida a Cultura, não cabe ao público outro nome) querem coisas leves, pornográficas quantum satis, fantásticas, pseudo-históricas, românticas mas fáceis, etc, em suma, sopa de pedra, albergue espanhol, onde caiba um pouco de tudo menos aquilo que implique seriedade –profundidade, procura. Tudo menos o que incomoda: obriga a pensar. O consumidor -conclui o “produtor”- não quer maçadas –quer é ser embalado e o segredo está em adormecê-lo. Diria que não vale a pena –ele já dorme a sono solto. Mas de que sono?
Há um breve ensaio de André Gide, intitulado “Paludes”. O leitor traduza por palude ou pântano. Gide define a obrinha: “história de animais que vivem em cavernas sem luz e cegam à força de não usarem a vista”. O nosso “consumidor” prefere, também ele, o escuro? Não há é dúvida que, assim, perde vista. E o “produtor” não está interessado em iluminá-lo –não se tem por Santa Luzia e não se esforça por ajudá-lo no uso dos olhos. Será que -instrumento de neo-obscurantismo- o prefere ceguinho? Será que, a confrontar-se com ele acordado, o prefere a dormir no palude? Porque o “consumidor”, acordado, talvez deixasse de ser um “consumidor” passivo e perguntasse: “Que pouca vergonha é esta? Queria Arte e venderam-me tretas? Onde pára a lebre, se, aqui, só boceja o gato?”
Ou será que os responsáveis pela divulgação cultural deitaram às ortigas a pedagogia? O dever de iluminarem a caverna e eliminarem o pântano, de indicarem caminhos que cortam ao invés da escolha do superficial evasivo? Omite-se a qualidade, apresenta-se pechisbeque, que se faz passar por oiro. É utopia pedir o contrário? E se escutarmos o grande Aharon Appelfeld: “A nossa vida não é fácil mas tem um sentido”? Qual? Quando? E quem no-lo aponta? Uma certeza: a feira da ladra imperante é que não tem sentido nenhum.
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