
As minhas primeiras imagens de Vitorino Nemésio devem ter mais de quarenta anos, no largo que separa as Faculdades de Letras e Direito, em Lisboa -desde logo, imagem diferente para o que era, professor universitário. E foi-o sempre: especial, singular. Nem poderia deixar de sê-lo, se pensarmos nas obras que deixou: “Mau Tempo no Canal”, “A Casa Fechada”, todas as poesias, as charlas envolventes, “Se bem me lembro”, na RTP, graças ao grande director de programas de então, Carlos Miguel de Araújo. Digamos que Nemésio era um intruso no meio académico português, este, “limpo e domesticado” (raríssimas as excepções), ao gosto do ditador da época, oferecido ao país pela nata ultramontana coimbrã. O homem que eu vi transpirava humanidade; também, uma qualidade raríssima, quase proibida, “clandestina”: o informalismo. E, no entanto, ele atentara, também, em Coimbra, ela interessara-o -mas a Coimbra do Espírito livre, a de “presença”, de Régio, de Branquinho da Fonseca, de Torga (data de 1930 a sua primeira colaboração na revista). E escapara-se logo, “escritor que a si mesmo se procura”, como o definiu Gaspar Simões, certeiramente. Distinguiu-se e afirmou-se, bem à sua maneira -no fim e ao cabo, a única que lhe interessava.
Ora quem, realmente, se procura -e se exige tal qual (o que não quer dizer que, alguma vez, se conquiste a si próprio, completamente, tal qual é)- escolhe a clandestinidade: recusa enquadrar-se, vestir algum uniforme. E assim aconteceu: por mais que o disfarçasse (e disfarçava?), por mais que o estilo literário -rico de potencialidades- e o seu estilo quotidiano -de extrema elegância- tentasse escondê-lo, vinha ao de cima o homem -o adolescente?-, em movimento contínuo de curiosidade, disponibilidade, cumplicidade. Cúmplice de quem? Daqueles que não se afazem à vida chata, monótona, estéril de um dia a dia sem chama, domado e estéril, de burguêses pelintras e de asas cortadas. E, graças a um destes -a um grande e genial rebelde-, conheci melhor Vitorino Nemésio.
Tomaz de Figueiredo -insubmisso por excelência- abriu-me o caminho: ajudou-me a chegar-me a Nemésio e conviver com a sua riqueza de criador. Vitorino Nemésio era generoso e, a par da luta pela independência moral e intelectual, dava outro combate: às decepções da vida, que não queria lhe tolhessem nem a espontaneidade, nem o amor sensual às coisas, nem o esforço sincero de entender. Claro que o recordo -e à viola- no velho “Pereira d’Alfama”; claro que recordo o olhar penetrante, secreto, a medir, a pesar. Mas o Poeta vencia as defesas: a falsidade nunca se instalou nele.
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