sábado, 16 de maio de 2009

A literatura humilhada


Quem levar a sério a criação artística -e a não tomar por mais um “produto” da vergonhosa sociedade de consumo que nos sufoca- deverá demorar-se na “Correspondência” entre Flaubert e Georges Sand (Flammarion), livro de cabeceira de muito boa gente. Os dois escritores abordam a Literatura: quando é ela vida ou não? Onde, a inteligência e a exigência ética? Transcrevo aquilo que afirma a Sand: “Desde que a literatura se tornou mercadoria, o vendedor só atenta no cliente que compra e, no caso deste desprezar o objecto, diz ao autor que a sua mercadoria não serve”. E protesta: “A república das letras não é feira onde se vendam livros!” Estávamos em 1872. Hoje, que se passa na república das letras?

A feira requintou: multiplicou-se e refinou-se a publicidade, impuseram-se os anúncios, compraram-se os “críticos”, meros agentes dela, que aviltam quanto aconselham e, submissos, escamoteiam o que, realmente, vale. A feira transformou-se em coelheira prolífera e sem escrúpulos. Enterram-se vivos e entronam-se mortos –ilusão pensarmos que se está vivo numa farsa assim, trágica, asfixiante, castradora.

Servem-se e impõem-se obras menores, inventam-se reis nus. A vida é curta e todo o tempo pouco para o perdermos com banalidades –entendem, justamente, alguns leitores. Mas que tempo, espaço e liberdade nos deixa o caldeirão onde caímos –a tal aldeia global, praça florescente de vigaristas obcecados pelo tal lucro, pela banha sacada à morte viva que nos impõem?

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