Passaram 75 anos, sobre o artigo de Afonso Duarte, citado abaixo. E ele soa como actual. Isso interessa-nos, especialmente. Porquê? Quando Afonso Duarte lastima que o “desenvolvimento as técnicas, a arte do engenheiro e do físico” não fosse acompanhado do “necessário aperfeiçoamento da organização social”, toca no dente doente. O aperfeiçoamento da organização social, o desenvolvimento sociocultural estagnou, durante quase 50 anos, congelado pela ideologia salazarista. Ou seja: o acesso ao ensino e ao bem estar, indispensáveis a quem quiser crescer como se deve, permaneceram privilégio de alguns. O 25 de Abril mudou muita coisa. Os portugueses, hoje, vivem muito melhor, podem adquirir bens impensáveis há 35 anos: casa, roupa, carros. Têm outra segurança social, outro sistema de saúde –criticáveis, é certo, mas conquistas do 25 de Abril. Casas, carros, à custa de endividamentos? Isso é outra conversa e liga-se ao mau governo da riqueza, que se corrigiu muito parcialmente. O que nos importa, agora, são os alicerces culturais: o ensino. Aí, os governos post-25 de Abril meteram água –e este governo, que vai lançando as sementes de uma geração analfabeta, continua a meter água, escandalosa e criminosamente. O que aconteceu e acontece? Os portugueses chegaram e chegam ao uso de coisas, sem saberem usá-las. Há, neles, vazio interior, inconsciência, incapacidade crescente. O atraso cultural ficou e vai ficar quase na mesma. E um homem inculto é facilmente levado a engano: a portar-se tal qual querem que ele se porte os donos do dinheiro.
p.s. 15 m depois: quando escrevo "mau governo", como causa de endividamento de particulares, refiro-me ao mau governo da nação, porque acusar de gastadores as pobres vítimas desta crise -o Zé Povinho, que somos todos- foi o recurso safado dos plutocratas, que a fizeram a ela, à crise...
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