terça-feira, 19 de maio de 2009

O dia de hoje...


A gripe mexicana, ou gripe A, como queiram... Há cem anos, ceifou milhões de vidas a “espanhola”, e ninguém se ofendeu por a chamarem assim... A gripe mexicana, dizia, vai-se espalhando e fazendo vítimas. Tanto pode calhar-me a mim, como a ti, amigo –e, eventualmente, calhar-nos a morte, o cangalheiro e o gato pingado... É injusto: porquê, a mim? Porquê àquele ou àquela? A morte é absurda. Jorge de Sena achava que não há mortes naturais... Queria dizer que ela -a Negra- é um acidente, sem pés nem cabeça, a cortar a maravilha da vida –a vida, essa, é natural: é razão de ser do Universo...

Mas a nossa indiferença, o nosso egoísmo, a nossa obsessão de números e estatísticas e um ‘cientifismo’ que sabe a magazine chegam a conclusões monstruosas. Esta notícia: responsáveis norte-americanos ‘justificaram’, assim, a morte de um homem, vítima da tal gripe: “é normal, todos os anos morrem milhares de pessoas, com gripe...” Milhares. Aquela pessoa não era mais do que um número... previsto, calculado, lógico... Um dos milhares esperados. Soube-me tão mal! Com mil demónios: era um homem, uma criatura de Deus! Um como nós, amigo! Em África morrem crianças com fome e sida. É natural: são números que cabem, naturalmente, nas estatísticas, nas previsões... nos cálculos...

Acerca do absurdez da morte, escreveu, já lá vão séculos, o nosso Sá de Miranda:

Que la mia vida se assuele
sin razón que ansi lo quiera!
Yo me pene, yo me muera!
Que nadie no me consuele!

Y por qué así me acontece
ninguno me lo demande:
toda razón desfallece.

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