sábado, 9 de maio de 2009

Páginas de um Diário Público


O Pobre de Pedir, de Raul Brandão... Onde param as obras de Raul Brandão? Encontro, pesquisando no Google, a seguinte morada:

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/obrbrandao.htm

Vendem livros do autor, em CD-ROM.

Mas, onde pára a obra de Raul Brandão? Quem o lê? Quem sabe, dele, mais do que o nome? É isso: não se atrevem a dizer que Ésquilo ou Sófocles estão ultrapassados... E, no entanto, nunca os leram, mas ouviram falar e dizer que são figuras maiores. Por isso, não se atrevem, têm medo. É o mesmo com Sá de Miranda ou Camões. E já começou a sê-lo, com Régio e Tomaz de Figueiredo. E outros: Afonso Duarte, Irene Lisboa, a jovem (viveu ontem) Graça Pina de Morais... Muitos. Certo: a impudicícia do “mercado” e da publicidade que o serve; os comentadores (não será ofensa a quem foi verdadeiro crítico, por exemplo, João Gaspar Simões e os seus milhares de páginas indispensáveis; o próprio Régio, de António Botto e o Amor, de Ensaios de Interpretação Crítica, ou de tantíssimos artigos espalhados por revistas e jornais; Mário Sacramento, de Eça de Queirós, uma estética da ironia, não será leviandade chamar “críticos” a meros publicistas venais?); o compadrio; a decadência do ensino –todos esses e mais elementos criminosos explicam a ignorância generalizada. Mas essa ignorância abraça outra, igualmente terrível, provavelmente trágica: a ignorância da vida. Escreve Raul Brandão: “A gente habitua-se a tratar a vida como uma vulgaridade e já não espera outra coisa da vida”. É terrível –e actual. Afinal Raul Brandão é actual! O nosso tempo -e o dia de hoje é um dos dias do nosso tempo- vulgariza a vida. Rouba-lhe o sonho. Mata o ideal. Há coisas e coisas, que escondem a beleza da vida. A vida não é vulgar: é extraordinária. Uma aventura empolgante. Um risco. Mas não se pode refazer a vida. Se a perdermos, não a podemos refazer. Ninguém pode publicar uma 2ª edição da própria vida, revista, aumentada e corrigida. “O que fizeste, fizeste-o para a eternidade” –sublinha Raul Brandão, em O Pobre de Pedir, que foi o último livro que escreveu.

Roubaram o ideal. Ontem, numa televisão francesa, um jovem (e, que o seja, é trístissimo; ou talvez aquele jovem não passasse de um velho, disfarçado de jovem..., não passasse de um homem precocemente envelhecido... mas tinha culpa: deixara que a morte tomasse conta dele e o transformasse em morto-vivo, antes do tempo, muito antes do tempo, se é que há algum tempo em que não é culpa ser-se um morto-vivo...), ontem, num programa de televisão francesa (na França, terra de grandes sonhadores, de grandes criadores, de grandes transformadores e construtores de mundos, ainda há pouco, ainda agora: Montaigne, Descartes, Diderot, Gide, Camus, Julien Gracq!...), um jovem regozijou-se com a morte dos ideais: “morreram as ideologias... Maio 68 já não pode repetir-se... essas greves, esses protestos não levarão a nada!”, dizia e ria-se. Ia escrever: “e ria-se o imbecil”. Pois escrevo-o, está escrito atrás; e acrescento: “e ria-se o desonesto imbecil”. Porque aquilo que discutiam era a crise: este cancro que alastra, atira milhões para o desemprego, cria mais e mais miséria, fome. Esta crise que tem pai e todos sabemos o nome desse pai tirano, desesperado (e enraivecido), a tentar permanecer incógnito: neo-liberalismo é o nome dele. Com todas as letras.

E o tal velho precoce, o jovem idiota mal intencionado (talvez, nem idiota nem imbecil: um chico esperto oportunista), não percebeu que, ao proclamar a morte das ideologias, e, consequentemente, a impossibilidade de mudar o mundo (a sociedade podre, em que vivemos, sofremos e começamos a agonizar), ao bater as palmas ao enterro da alma e da dignidade humana –punha, ali, bem à vista, a sua ideologia: humilhar, ofender e escravizar os fracos: aqueles que não pertencem à elite dos fortes: dos donos da terra, do trabalho e do dinheiro.
The Economist cita o escritor italiano Massimo Giannini, que define o “caso Berlusconi” (também, muito triste...) como “uma forma moderna de totalitarismo post-ideológico”. Eu compreendo o que Giannini pretende: denunciar a ferida do incivismo: virarmos as costas às responsabilidades (a começar pela responsabilidade por nós próprios) e rendermo-nos; desistirmos de pensar e das nossas opiniões e aceitarmos que disponham das nossas vidas e nos escravizem.

Para o “iluminado” jovem, sem sonhos nem aventura e, pior, já sem pureza, há uma ideologia: a que aproveita a decadência cultural, a ignorância de direitos e deveres cívicos (que implicam a igualdade de oportunidades, o direito ao trabalho, a solidariedade social...) e, assim, instala um totalitarismo restaurado –corrigido e actualizado
...

Sem comentários:

Enviar um comentário