
Desde a primeira hora, impressionou-me, em Sá de Miranda, a verticalidade. Naturalmente, apaixonei-me pelo estilo enxuto, certo, essencial e encantou-me a beleza dos versos. Porém, as cartas e a biografia tocaram-me fundo. Sempre admirei os homens honestos, pontos de referência. Sá de Miranda tinha uma ideia de si próprio e dos outros. Respeitava-se e respeitava os outros. Eu sei: há autores cuja biografia é um desastre e a obra formidável. Louis-Ferdinand Céline ou o nosso Botto, por exemplo e por motivos diferentes. Nesses casos, o fim infeliz quase os redimiu: Céline, morreu pobre, humilhado, homiziado; Botto, algures, no Rio de Janeiro, pobre como sempre, de modo não esclarecido... Eu sei isso. Todos sabemos isso. Mas a integridade faz muita falta –sobretudo, agora, aqui e por toda a parte, com os intelectuais a venderem-se e os autores a prostituírem-se –olho no dinheiro, olho no sucesso. Ainda há pouco havia nomes, aos quais nos podíamos referir: António Sérgio, Aquilino Ribeiro, José Régio -Mestres... Hoje, onde param os Mestres? Venalidade, literatice descartável, pornografia ridícula (seremos um povo de subdesenvolvidos sexuais?), prestígios que se compram e vendem. Traficantes de almas... Vendedores de banha... Sá de Miranda, retirado, na sua Casa da Tapada, dizem que a chorar por um Portugal decadente; pobre Sá de Miranda, se voltasse e visse oo país em que nos vamos tornando!
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