Às vezes, a nossa aceitação -a nossa resignação- impacienta. É o mistério do emigrante português, trabalhador honesto, requestado e respeitado. Durante os meus anos de estrangeiro, e por todo o lado onde andei, só ouvi dizer bem dos portugueses. E encontrei-os felizes, aventurosos, capazes de construir novos mundos, se fosse caso disso. E, agora, regressado, surpreende-me e revolta-me o conformismo deste povo: ajeitam-se, arranjam-se, afazem-se ao que o dia lhes dá. É um fenómeno cultural? Talvez, mas custa a entender. Há oitocentos anos?! E, simultaneamente, independentes, orgulhosos, de antes quebrar do que torcer... Romanos, espanhóis, franceses que o digam. E, se os ingleses nos chuparam muito tutano, lá acabámos por correr com eles, Beresford, a pontapé... Depois, acontece uma esquisita taciturnidade, mudez, misantropia. E o contrário, também: uma inesgotável humanidade. No século XVI, escrevia o ermita da Casa da Tapada, o ‘quase estrangeirado’ (quase, porque nenhum português se estrangeira, completamente), Sá de Miranda: 'não há de falecer quem me arremede. Os Portugueses [a maiúscula pô-la lá ele] sois assi feitos logo pola primeira, despois dareis o sangue dos braços'. Como quem diz: a prevenir, a mocada, logo a seguir, fraternos, os braços abertos...
Creio que anda no meio o masoquismo: pessimismo tornado flagelo –cada um a chicotear-se a si próprio. E, nisso tudo, a vontade de escurecer o céu ou de não nos afogarmos sozinhos.
Ora veja-se: ontem, fui comprar fruta ao lugar do bairro. A dona é beirã e tem um filho que quer estudar agronomia, e há por lá uma escola da especialidade. Mas ao rapaz não agrada a província. ‘É pena’, comentei eu, ‘as Beiras precisam de gente...’ E a mãe: ‘Não lhe apetece... afeiçoou-se ao sítio...’ O sítio é a grande Lisboa, monstruosa, desumana, incaracterística, que estafa quem cá trabalha e cá vive. ‘É pena’, insisto. E logo uma freguesa: ‘Se ele não arranjar aqui trabalho, p’ra lá tem de ir!' A vontade era responder-lhe: ‘Não tem nada que ir para parte nenhuma! Tem é que defender a vocação e exigir qualidade de vida, que é que não há aqui!’ O que eu percebera no dizer daquela mulher não era nenhuma solidariedade comigo mas, sim, outra vez a desistência, e alguma inveja. 'Temos de ir, não somos senhores do nosso destino' e, ainda: 'que exigências pode ter o filho de uma vendeira de hortaliça?!'
Em suma: incomodara-me estreiteza de espírito e mesquinhez. É não reagirmos ao “tem de ser” que nos atrasa a vida, nos diminui, nos empobrece.
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