
Alguém se lembra desta peça? Alguém se lembra deste autor? Eu não me refiro aos estudiosos, aos especialistas, esses lembram-se, com certeza. Penso no leitor comum, no espectador comum... Tão raramente vejo citado Bernardo Satareno, vejo no teatro A Promessa! Já sabemos que o canibalismo se instalou na feira literata: a famosa e vergonhosa arte do arreda: ‘chega p´ra lá que o lugar é meu...’ A técnica do silêncio, de enterrar o próximo cuja sombra se teme, vivo ou morto... A táctica de má língua ou da nenhuma língua.
Bernardo Santareno é um dos nossos melhores dramaturgos. Por acaso, foi meu amigo. Conheci-o, nos idos de 1956, na Pastelaria Paraíso, Rua de Alexandre Herculano, em Lisboa. Apresentou-me o meu irmão Eurico. Desse grupo de jovens idealistas, fazia parte Graça Pina de Morais. Idealistas; anteriores, pois, aos cinzentos produtos daquilo a que se chama, hoje, post-ideologia... Artistas desejosos de se verem publicados e, naturalmente, admirados... Graça Pina de Morais estava apaixonada por Santareno, que não correspondia, se bem muito a estimasse –e, infelizmente, toda a vida ela viveu e sofreu essa paixão. Santareno era um homem encantador, simples, generoso e culto. Com ele aprendi muita coisa. Não era um literato, era um homem profundamente humano. Aliás nisso residia a diferença positiva daqueles jovens: não olharem para a Arte como uma “carreira”, verem-na como vocação, missão. Eram anti-literatos.
Rcordo a ida ao Norte, onde estreou, em 1957, no Teatro Experimental do Porto, A Promessa, encenada por António Pedro e com dois actores extraordinários: Dalila Rocha e João Guedes. A peça foi um sucesso –e, imediatamente, nasceu a inveja, o escárnio e o mal dizer... O pior que se pode fazer a um autor é insinuar-lhe parentescos: “É do género do Tchekov... é do género do Claudel... cheira, tresanda a Brecht...”, e por aí adiante. Ora logo descobriram os despeitados que Santareno era... filho do Lorca. A resposta de António Pedro foi de mestre: arrasadora: ‘Mais vale ser filho do Lorca do que filho da puta!”
Mas não arrasou nada: o assassínio, o silenciamento de Bernardo Santareno prossegue. Devagarinho, subtil, encapotado –porque os frustrados e os canibais são manhosos e covardes.
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