Direitos ao Rialto. Atravessaram praças, subiram e desceram pontes, sem encontrar ninguém. As primeiras pessoas que cruzaram olharam-nos.
-Quem são? -perguntou Greta.
-São pessoas... Pessoas de Veneza...
No alto do Rialto, pararam a olhar para o Canal Grande. As gôndolas estavam encostadas às margens e a água era vidro baço.
-Nunca tinha visto nada assim! -disse Giacomo.
-Eu já...
-Onde?
-Noutros sítios... Quando os rios e os lagos gelam, as pessoas costumam patinar, usam trenós para levar coisas... Brincam...
-Aqui, não acontece...
-É bonito... -murmurou Greta.
Reparou que ela não tirava os olhos do canal.
-Oh! -gritou.
-O que foi?
-As crianças!
Duas raparigas, de patins, com blusões azuis e calças brancas, cortavam o canal, o rosto envolvido num cachecol amarelo.
-Não são crianças...
-Pássaros...
-Isso é porque estão longe... -respondeu Giacomo, que a empurrou para as escadas- Vamos comer...
Em S. Bartolomeo, entraram numa cervejaria.
-Uma sanduíche e um café. E tu?...
Ela olhou para o balcão e disse:
-Camarões...
E corrigiu:
-Uma salada.
O empregado perguntou:
-Estrangeira? Alemã?
-É uma amiga sueca que chegou hoje... -disse Giacomo.
-Ou ontem à noite? -disse o outro, que lhe piscou o olho.
A graça irritou-o e precisou:
-Hoje. Às cinco da manhã.
O que é que tinham com isso? Mas, realmente, aquela mulher era diferente.
O empregado já nem o ouviu, a atender os clientes. Falava-se do tempo e dos canais gelados. A máquina do café e o calor das pessoas embaciavam os vidros. Lá fora, era outro mundo. O mundo que Giacomo se habituara a esquecer. Há muito que o recusava. Ou desistira dele?
-Uma aguardente -pediu.
Não queria pensar nisso: recusa ou desistência, era o que era.
-Nunca tinha acontecido uma coisa destas: a lagoa gelada! -disse um homem de meia idade, que bebia uma cerveja, ao fundo do balcão.
-Giorgio! Se nunca tinhas visto, vês agora! -respondeu-lhe o empregado.
Greta riu-se.
-Também acha? Na sua terra deve ser sempre assim -insistiu o outro.
-Na minha terra e noutros sítios...
-Conhece muitos sítios? Já viajou muito?
-Muito... Por onde fui.
-E havia sempre neve? Frio?...
Ela olhou para ele. O empregado parecia assustado com as suas palavras, ou, com aquilo que, nela, era diferente.
-Neve, frio... E céus azuis, abertos, árvores de rama verde, terra florida, que nunca mais acabava...
Por um momento, pareceu a Giacomo que todos se tinham calado, a ouvi-la.
-Não quer mais nada? A salada não a aquece. Um chá? Uma torrada? -perguntou o empregado.
-Um chá.
-És vegetariana? -perguntou-lhe Giacomo.
-Não...
Assustou-se. Depois, desafiou-o com o sorriso.
-E daí, talvez... -Despacha-te. Temos de ir comprar roupa!
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