

Não são muitos os romances portugueses verdadeiramente grandes. Camilo e Eça marcaram-nos, figuras tutelares. Depois, surgiu um gigante, diferente e, como os outros, único: Aquilino Ribeiro. Por aí, andou e provocou mundo e estrelas o cavaleiro-poeta Tomaz de Figueiredo... Certo, corro depressa demais e, talvez, nem respeite o tempo. Há uma novelinha, que rasgou caminhos e talvez poucos lembrem: Confissão de Lúcio, do genial Mário de Sá-Carneiro, abriu, em 1915, o caminho de coisas que vieram depois: a novela, o romance de análise psicológica. E aconteceu a presença (1927-1940), sem dúvida, a grande revista de artes e letras do nosso século XX e o movimento literário mais fecundo e importante do mesmo. E eis Branquinho da Fonseca, com Zonas, 1931, João Gaspar Simões, com Elói, 1932 e José Régio, com Jogo da Cabra Cega, 1934, em busca do que se passa dentro de cada um... À margem de presença, há que assinalar Páscoa Feliz, 1932, de José Rodrigues Miguéis e, anos depois, 1943, Enfermaria, Prisão e Casa Mortuária, de Domingos Monteiro, sempre na busca da resposta aos problemas que bulem, na cabeça do homem. E, pelo meio, afirmava-se, sem conquistar nunca e até hoje, o vasto público que merece (se esse público existisse...), Irene Lisboa, a autora de Solidão, 1939, que não é um romance, nem novela, é a extraordinária confissão de uma alma, a novelista maravilhosa de Começa uma vida, 1940... Abriram esses o caminho da Geração de 50: a de Graça Pina de Morais, de José Cardoso Pires, de Carlos de Oliveira, de Faure da Rosa..., de Augusto Abelaira. Da falecida (e já esquecida?) Fernanda Botelho. Da especialíssima Agustina Bessa-Luís, destinada a ler-se em antologia, com rasgos de génio e chamas de loucura, às vezes visionária.
Hoje, destaco um romance, que a censura salazarista proibiu, mandou retirar do mercado e cuja 3ª edição, esgotada, data de há 41 anos: o tal Jogo da Cabra Cega. Quantos romances, em Portugal, mergulharam tão fundo nos abismos do homem? No Infinito Divino e no poço diabólico? E quantos leitores da nova geração, que parece presa de livros e autores descartáveis, superficiais, desnecessários, geração levada pela força do mercado e pela decadência do ensino –quantos abriram a obra singular de José Régio?
(Reproduzo as capas da relativamente recente edição em francês e da 1ª edição )
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