sexta-feira, 8 de maio de 2009

O dia de hoje, o infame progresso, Aldo Zari, Pascoal Viegas e o porquinho-da-índia de Manuel Bandeira...


Há muitas maneiras de começar o dia. Por exemplo, olhar para o mar, o pedacinho de mar que o progresso deixou, entre cubos de betão, a que os franceses chamam cages à lapin: esses depósitos de gente, de facto, caixas empilhadas, onde dizem que vivem pessoas que sobrevivem e envelhecem...
Olhar para os braços de quatro árvores tísicas, que a Câmara de Cascais poupou. A Câmara de Cascais é pior que os madeireiros do Amazonas: onde vê raminho, plantinha, qualquer coisa verde, zás!, manda cortar... E, depois, vende, deixa construir prisões a que chama prédios de habitação.
Eu moro naquela que foi -no tempo em que os homens falavam!- a Costa do Sol, a uma dúzia de quilómetros de Cascais: em São João do Estoril. Diz bem o amigo que disser que vivo numa garagem, com monstros de betão à volta; que vivo numa plantação de casas, sem rei nem roque plantadas, com as ruas (?) pejadas de carros. Carros, carros, carros. Lata, lata, lata. Em cima dos passeios, ao longo dos passeios..., encostados aos arbustos que restam, a rasgá-los, a sujá-los, a matá-los... Betão, betão, betão. Cimento infame. E o veneno dos tubos de escape.
O presidente da Câmara de Cascais, António Capucho, foi... ministro da qualidade de vida... Adiante!

Mas há outras maneiras de começar o dia. Por exemplo, olhar para o quadro de Aldo Zari, o pintor pobre, que vive em Veneza, com as mãos cheias de oiro e a carteira vazia; admirar, mais uma vez, A morte do Cônsul, que assim se chama essa maravilha de Zari... Claro que ele se lembrou do Malcolm Lowry e de “Under the Volcano”, quando o pintou... Ou olhar para a jóia do genial naif são-tomense, Pascoal Viegas (exposto em museus de Nova-Iorque): Dança Congo...

Os dois enchem o coração e encorajam. A grande Arte encoraja, sempre –e mais do que um Johnny Walker (Philip Marlowe não concordaria? Quem sabe?). ..

Já agora: em São Tomé, nasceram, também, Viana da Mota e Almada Negreiros... E vive lá, sempre única, sempre generosa, sempre irreverente, a estupenda poetisa Alda do Espírito Santo.

Há, ainda, outra maneira: recordar o nosso Porquinho-da-Índia... Não era Georges Bernanos quem nos aconselhava a ser fiéis à criança que fomos? Então, leiam esta pérola do imenso Manuel Bandeira, intitulada, precisamente, Porquinho-da-Índia:

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prà sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

-O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

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