Recordava esse mundo e o que passara a ser o seu: a Accademia, Lisetta, a farsa dos exames e do curso. As primeiras exposições, os elogios. A carreira, à frente. O pai dissera-lhe, metido, outra vez, consigo e virado para o fogo:
-Isto é para queimar...
-Eu não sou para queimar!
A voz vibrava. Não queria magoá-lo, mas, a vontade de se ir embora era muito grande. O pai sorriu. E ele sofreu com a amargura dele.
-É a minha vida, pai...
-Faz a tua vida.
-Vou fazê-la... -disse-o, triste, porque ia deixá-lo.
Para onde é que ia? Nunca aceitara o que lhe pediam: que participasse daquilo que considerava uma comédia. Ganhara prémios, tinham falado dele. Mas tudo era uma imensa feira. Ninguém exigia nada. Qualquer coisa, no coração, o impedia de os ouvir. «Triste fim de século!», pensou. «Para que é que isto serve? Para queimar? Alguém diz alguma coisa verdadeira? Alguém luta? Onde estão as crianças? A criança que eu fui? O que fizeram de nós? O que nós deixámos que nos fizessem? O que aconteceu aos sonhos da nossa juventude? Quem são esses homens, que correm, matam? Que não vêem... Que fogem... Do que é que fogem?» Não havia ninguém. Ou era como se não existissem. O que diziam não o tocava, mas sofria por isso. Eram vozes, à sua volta. Estava sozinho. E não gostava da solidão. O que fizera da vida?
-No ano dois mil...
-O quê? -perguntou-lhe Greta, espantada.
-No ano dois mil, já tenho cinquenta...
-Daqui a oito anos...
-Ah!, tu sabes...
-Pois sei. Mas, o que é que aconteceu? Não íamos comprar um vestido?
-Um vestido ou uma saia?
-Um vestido! Por onde é que andaste? A sonhar?
-Talvez...
E o dinheiro? Não o tinha. Ficava a dever...
-Vamos à loja da Roberta...
A loja da Roberta era no Campo S. Maurizio, uma sala pequenina, com um manequim na montra. Greta parou, a olhar para o manequim: um corpo de mulher, com um lenço violeta pendurado do braço estendido.
-Vamos?
Roberta apareceu, a rir-se, a saia estampada, transparente, a blusa amarela, os cabelos curtos, os olhos azuis abertos.
-Olá!
Viu Greta, de roupão e calças de veludo, com sapatos de homem, e perguntou:
-Quem é a tua nova amiga? É muito bonita!
-É uma amiga que chegou hoje -respondeu Giacomo- e precisa de roupa.
-Venha -disse Roberta e pegou na mão de Greta-, escolha. Como é que se chama? Não é italiana, pois não?
-Tem coisas tão lindas! -disse Greta, a olhar.
-Ai sim? O quê?
-As sedas... Giacomo!
Ela nunca o tinha chamado pelo nome.
-Quais sedas! Precisas é de roupa feita. Há, aí, qualquer coisa, Roberta?
-Há muita...
-Greta, escolhe...
-Olhe esta camisola de lã, ou esta blusa branca, que lhe fica bem, ou este casaco quente... Não quer meias, Greta?
Ela enrolara-se nas sedas, gostava de as sentir no corpo, e dava voltas, a ver-se ao espelho.
-Deixa lá! -disse Giacomo- O que é que queres?
Ela não olhou para ele e disse:
-O que me comprares...
-Compra-se tudo! E paga-se depois...
-Se pagares... -disse Roberta- Afinal? Um vestido, uma saia e uma blusa, um casaco de Inverno?
-Um vestido e um casaco...
-E os sapatos? Espere, eu arranjo. Fica-lhe tudo bem! É linda, ruiva e com sardas... E com as unhas compridas...
-O que é que isso tem? -exclamou Giacomo- Há para todos os gostos! Com unhas e sem unhas!...
-Pois há -disse Roberta, divertida- E tu, normalmente, tens bom gosto...
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