
Foi daqueles raríssimos amigos, que dão, às nossas vidas, um sentido. Conheci-o, no Verão de 1958, em Paris, na Cité Universitaire. Pablo Guevara (1930-2006) era peruano, de Lima. Apareceu, com outros sul-americanos, estudantes e artistas. Convivemos dois meses. Chegámos a dividir, com mais dois sul-americanos e um catalão, um quarto no edifício patrocinado pela Fundação Deutsche de la Meurthe... Corremos Paris, procurámos trabalho nos Les Halles, discutimos literatura e cinema, o nosso futuro e as nossas paixões. Ele andava já apaixonado por uma jovem dinamarquesa, com quem acabaria por casar; eu suspirava por uma adolescente alentejana e descobrira Teresinha de Almeida, uma brasileira de Santos, licenciada em Direito, muito bonita, delicada e viva, arguta, suave, leitora de Aragon, que tinha um ‘noivo’ holandês e se desfez dele. Seria Teresinha a dizer-me: ‘Manuel, você gosta é dela...’, da tal alentejana, e a deixar-me, à partida (foi-se embora, antes de mim), o livrinho do poeta francês, Le Créve-Coeur, com a seguinte dedicatória: ‘Manuel, não esqueça Paris”. Não esqueci. Nem a esqueci a ela nem a Pablo. A vida meteu-se ao meio, o que tinha de vir veio –e perdi-lhes o rasto. Teresinha de Almeida ainda me escreveu e, depois, calou-se; Pablo Guevara desapareceu, na bruma. Tentei, em vão, recuperá-los. Há-de haver tantas Teresas de Almeida, no Brasil! Nunca mais soube dela. E as pessoas a quem perguntava por Pablo Guevara iludiam a resposta, não o conheciam. Cheguei a pensar que, homem de esquerda marcada, fosse um ‘temível’ guerrilheiro do Sendero Luminoso... Há anos –em 2003- consegui entrar em contacto com Pablo: tornara-se um famoso poeta e ensinava na Universidade de Lima. Ainda falámos pelo telefone –mas a vida meteu-se, outra vez, ao meio... Quando o voltei a procurá-lo, quatro anos depois, já não existia. Devo-lhe muito: deu-me muito e ensinou-me muito. Montaigne escreveu, a propósito da sua amizade com La Boétie: ‘parce que c’était lui, parece que c’était moi”. Connosco, o mesmo. E continuo a andar, com Pablo, no coração.
Sem comentários:
Enviar um comentário