Deixei o Gerês, a Pousada de S. Bento e os arrozes fabulosos do Sr. Augusto, direito ao Barroso e a Montalegre, onde Minho e Trás-os-Montes se espreitam e separam. A Pires Sanches, artista refugiado na Guarda, mandei dizer que ia em busca dum fidalgo daquela Serra, o mítico Barão. Ambos sabemos (todos sabem) que ele nunca abandonará o seu reino, enquanto a Bela-Adormecida viver. E Barão e Bela-Adormecida são eternos –tal qual a novela que os imortalizou: a obra-prima de Branquinho da Fonseca, exactamente, O Barão. Lançaram ferro dentro do nosso sonho. À esquerda, o Gerês foi-me acompanhando e, a dada altura, cortei em Ruivães e desci à barragem de Salamonde. A meio do caminho, apareceu, outra vez, à minha frente, o mundo fantástico e sereno, concreto e gentil, único. Miguel Torga chamava reino maravilhoso a Trás-os-Montes. No entusiasmo de alma deslumbrada, Torga não se enganou: soube ver; a maravilha do mundo é do tamanho dos olhos de cada um. E tornamos ao Barão, porque foi ele quem o disse
O encanto não se quebrou, quando retomei a nacional 103, a Serra da Cabreira, à direita, e o Larouco, lá longe. Nem se quebraria, ao entrar em Montalegre: bastava respirar o ar puríssimo, encher os pulmões e expulsar miasmas e abrir os olhos e visitar o formoso castelo, obra de D. Dinis, o Rei-Poeta. E, depois, amesendar-me no Café Restaurante Ricotero e saborear uma posta barrosã, digna de 5 estrelas, e regá-la, generosamente, com um tinto brejeiro. Chegada a hora da verdade, revoltado, exclamei: “Como seria bonito Portugal!” E imaginei-o tal qual o tinha visto e via: livre do betão, autêntico, esplêndido na própria identidade.
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