
Quando, em 1952 (salvo erro), os Livros do Brasil começaram a publicar a Colecção Miniatura, muita coisa se modificou. Eram, praticamente, os primeiros livros de bolso e de altíssima qualidade, graças aos autores escolhidos e aos capistas convidados. O primeiro múmero, O Livro das Lendas, de Selma Lagerlof, tinha uma linda capa de Mestre Bernardo Marques. Recordo bem a sua chegada a nossa casa, pela mão de minha irmã Maria Júlia, de férias na Guarda, porque quem lá vivia era eu, com a velha ama Beatriz e o cão Vick, no antigo Largo 5 de Outubro (o edifício ainda resiste, devoluto e à mercê da CMG...). Foi um acontecimento! Seguiram-se-lhe obras de Somerset Maugham, Steinbeck, James Hilton, Graham Green, Giovanni Papini, Katherine Mansfield, Clemence Dane... Virgínia Woolf. Hemingway, Thomas Mann, Balzac, Tchekov, Truman Capote… Sei lá! A fina flor da Literatura! Cada novo voluminho, a preço acessível, fácil de guardar, de trazer connosco, era um acontecimento. Um valor precioso. E tornou-se a Colecção Miniatura ponto de referência, modo de aprender a ler e a separar o trigo do joio. Essa função pedagógica tiveram, nesse tempo, outras editoras: a Portugália, a Inquérito, em que a influência positiva do grande crítico João Gaspar Simões se fez sentir... Apareceu, também, da Editorial Gleba (as Publicações Europa-América retomaram-na mais tarde), a Colecção os livros das três abelhas (1953?), dirigidos por Aurélio Cruz e Victor Palla –que publicaram, entre outros, Steinbeck (A um Deus desconhecido), Andre Kedros, Elio Vittorini, Manuel da Fonseca...
O livro não era, então, um “produto”, era obra de arte, que o editor queria levar ao leitor -e a tal preocupação pedagógica ainda não fora desbancada pela infame ganância do mercado, que puxa para baixo e desacredita a Cultura. Em suma: a Cultura valia –e, nos casos descritos, em oposição clara à mentalidade bota de elástico salazarista...
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