´Que valor teria a minha vida sem o sonho?´, pergunta-se Raul Brandão, n’O Pobre Pedir. Este seu livro -o último que escreveu- é um requisitório. Raul Brandão é réu e juiz. ‘Do que me acuso é do que não fiz, tomando a tangente e remoendo palavras. Qual foi a tua acção? Que atenção deste à tua alma?’ Pede-se responsabilidades. É o fim, à vista –e que sentido deu à sua vida? ‘Não menti talvez –mas não falei verdade’. Eis o que ao angustia e aflige: que andou a fazer? Andou a simular, a fingir –a fugir ao caminho certo? O fim está sempre à vista –e é o medo dele que nos mantém de pé. Instintivamente. Mas aquilo a que nos agarramos vale, de verdade? Andou a fugir? Cobriu-se de panos, para não ver, para não sofrer a responsabilidade? Sócrates, filósofo que talvez não passasse de um vagabundo de Atenas, dado à conversa e à interrogação, quando lhe acenavam com o oiro, dizia: “Ora aí está uma coisa de que eu não vou precisar!” E corria, em busca dos amigos, banqueteava-se com eles, que é uma maneira de dizer, bebiam vinho, comiam frutos, falavam do sonho. E que sonho era esse -tão indispensável a Raul Brandão-, que imaginavam eles, os convivas de um ágape tão singelo? Singelo mas essencial –porque no resto é que estava o silêncio... o frio... a indiferença... Quando sonhavam, partiam à descoberta do desconhecido: do equilíbrio do Universo, isto é: do motivo por que estavam ali e do modo certo de se assumirem, sujeitos de uma aventura fantástica: aquela mesma: atravessarem a vida, tocarem o mundo. E imaginavam. Isto e aquilo. Teorizavam. E amavam; com o vinho, bebiam os dias. Talvez o problema fosse esse: não se enganarem no cálice. O que viria a seguir, quando morressem? Aquilo que imaginavam? Ou o nada? Aquilo que sonhavam? Teria de ser o que sonhavam: o sonho era tão intenso, arrebatava-os... Ardiam com ele. Ah, sem o sonho, nada era nada. ‘Quero poder continuar a sonhar, a viver o outro lado da vida!’, exclamava, mais ou menos, Brandão. ‘As coisas que trazeis, o oiro e as sedas, as pedras preciosas, dispenso-as’, troçava Sócrates, mais ou menos assim. Eu tenho a casa cheia de quadros e livros e música. Acompanham-me, quando se animam. Abrem-me as portas do tal sonho. E, no entanto, são, apenas, coisas. O indelével está dentro de mim, dentro de nós. Sim: essas meras coisas -livros, pintura, música- deixam de o ser, ao metê-las eu cá dentro. Afinal, só vivem quando as sonho. Afinal a vida, o universo, o Infinito só existe porque eu o sonho –o animo, quando o recebo na minha alma.
domingo, 17 de maio de 2009
O dia de hoje...
´Que valor teria a minha vida sem o sonho?´, pergunta-se Raul Brandão, n’O Pobre Pedir. Este seu livro -o último que escreveu- é um requisitório. Raul Brandão é réu e juiz. ‘Do que me acuso é do que não fiz, tomando a tangente e remoendo palavras. Qual foi a tua acção? Que atenção deste à tua alma?’ Pede-se responsabilidades. É o fim, à vista –e que sentido deu à sua vida? ‘Não menti talvez –mas não falei verdade’. Eis o que ao angustia e aflige: que andou a fazer? Andou a simular, a fingir –a fugir ao caminho certo? O fim está sempre à vista –e é o medo dele que nos mantém de pé. Instintivamente. Mas aquilo a que nos agarramos vale, de verdade? Andou a fugir? Cobriu-se de panos, para não ver, para não sofrer a responsabilidade? Sócrates, filósofo que talvez não passasse de um vagabundo de Atenas, dado à conversa e à interrogação, quando lhe acenavam com o oiro, dizia: “Ora aí está uma coisa de que eu não vou precisar!” E corria, em busca dos amigos, banqueteava-se com eles, que é uma maneira de dizer, bebiam vinho, comiam frutos, falavam do sonho. E que sonho era esse -tão indispensável a Raul Brandão-, que imaginavam eles, os convivas de um ágape tão singelo? Singelo mas essencial –porque no resto é que estava o silêncio... o frio... a indiferença... Quando sonhavam, partiam à descoberta do desconhecido: do equilíbrio do Universo, isto é: do motivo por que estavam ali e do modo certo de se assumirem, sujeitos de uma aventura fantástica: aquela mesma: atravessarem a vida, tocarem o mundo. E imaginavam. Isto e aquilo. Teorizavam. E amavam; com o vinho, bebiam os dias. Talvez o problema fosse esse: não se enganarem no cálice. O que viria a seguir, quando morressem? Aquilo que imaginavam? Ou o nada? Aquilo que sonhavam? Teria de ser o que sonhavam: o sonho era tão intenso, arrebatava-os... Ardiam com ele. Ah, sem o sonho, nada era nada. ‘Quero poder continuar a sonhar, a viver o outro lado da vida!’, exclamava, mais ou menos, Brandão. ‘As coisas que trazeis, o oiro e as sedas, as pedras preciosas, dispenso-as’, troçava Sócrates, mais ou menos assim. Eu tenho a casa cheia de quadros e livros e música. Acompanham-me, quando se animam. Abrem-me as portas do tal sonho. E, no entanto, são, apenas, coisas. O indelével está dentro de mim, dentro de nós. Sim: essas meras coisas -livros, pintura, música- deixam de o ser, ao metê-las eu cá dentro. Afinal, só vivem quando as sonho. Afinal a vida, o universo, o Infinito só existe porque eu o sonho –o animo, quando o recebo na minha alma.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário