
De vez em quando, volto a abrir Apontamentos, de Irene Lisboa. Não sei se é uma edição de autor. Ela tinha dificuldade em arranjar quem a editasse. Nunca foi -alguma vez será?- uma autora de sucesso. Hoje, muito menos poderá sê-lo. Não porque as pessoas tenham ficado menos capazes de apreciar os livros, o que aconteceu é que a arte se transformou num “produto”, que se explora como se explora a venda de sapatos.
E, daí, talvez, pouco a pouco, o público vá piorando, nele definhe a exigência, vítima de uma avalanche de vulgaridade que o deforma. Olho à volta: o ensino prepara alguém para alguma coisa? Esta geração sobreviverá, culturalmente, à vertiginosa decadência do ensino?
A educação: nisso, o 25 de Abril falhou –e é trágico que falhasse. E, com este governo de socialismo capilé, de neo-liberalismo mal disfarçado, em que uma ministra da educação incompetente, irresponsável, desprestigiou professores e currículos –o que ficará, mais do que o acumular de títulos académicos sem nenhum valor?
Porque o valor não está nos títulos; esses arranjam-se, inventam-se, fabricam-se; está naquilo que cada um sabe. E os alunos acumulam títulos e ignorância. O ensino tornou-se a escola da ignorância.
Há, por detrás disso, interesses económicos? Se os há, são interesses suicidas. Alarga-se a ignorância e perde a sociedade qualidade. Governa-se mais facilmente uma sociedade imbecil, que se contente com a superficialidade –não pense, gaste a vida na compra e uso de coisas? Ela convém, a uma minoria exploradora, a maioria inconsciente e irresponsável, sugadora? Convém –mas chega, inevitavelmente, o dia em que a maioria alienada se transforma em massa inútil: perde cultura, conhecimento, qualidade intelectual; não inventa, não cria, perde o mínimo de poder económico que lhe permita continuar a assegurar o “mercado” em que as minorias apostaram tudo e onde chupam o dinheiro. O suicídio das minorias não me preocupa; inquieta-me ver que ele arrasta a agonia das maiorias exploradas, escravizadas, comandadas. E estou a ver.
Irene Lisboa, Apontamentos... Reabro o livro e retomo uma conversa que faz pensar. Por exemplo: a beleza? A maravilha do mundo, que nos emociona? Que nos arrebata... Que nos reconforta... Diz Irene: ‘A cor diversa do chão, as linhas de divisória, as árvores, os caminhos batidos... A curva de uma certa estrada entre vinhas dava-me tanto gosto! Vê-la, do meu ponto de mira, era o mesmo que ajudar à criação de um mundo de formas... Inaplicadas, certamente, apenas interessantes pela força de não sei que arrebatamento do espírito. Apenas belas!’
Inaplicadas? Inúteis? "Improdutivas"? Apenas belas graças à recriação da sua, da nossa força espiritual –os tesouros da Terra, a poesia do Universo? Ao interrogar-se, Irene parece insegura. Em 1943, a obrigação de fazer arte "empenhada", a ditadura da arte socialmente útil, do realismo socialista, ia-se impondo. Entre nós, o jadnovismo (que gerou medíocres escritores neo-realistas) pesou, até há pouco tempo. Durante o salazarismo, foi uma censura paralela.
Mas Irene Lisboa, hesitante, levantava uma questão essencial: a do Espírito e da sua relação com a matéria; a da realidade (ou existência) da matéria, sem o Espírito. Fala de um mundo adormecido, que nós arrancamos ao silêncio e animamos dentro da nossa alma. A frieza, o gelo do Universo, o silêncio da Terra –como seria ele, sem as criaturas de Deus: nós e os mais, esses mais que encantaram o santo de Assis?... Não somos nós, criaturas de Deus, que emprestamos beleza ao Universo? E não é graças a nós que essa beleza existe? Eles não voltam a morrer, cada vez que alguém morre, e não renascem, quando outro alguém abre os olhos para eles?
É de Raul Brandão, o protesto (perplexidade): ‘Morrer é não conceber mais nada. O que me custa é deixar a outra vida que só concebo nesta vida -é a discussão- é o sim e o não, oh talvez! –é a personalidade e o sonho.’
Sonhamos, interiorizamos a vida, descobrimos (inventamos?) o outro lado da vida e ela passa a ter sentido. Sem o nosso sonho, tudo seria absurdo.
A escrever assim, já sabe, tem um lugar no meu coração.
ResponderEliminarComo gosto da luta que trava, eu que já quase perdi a vontade de lutar.
Um abraço