quinta-feira, 21 de maio de 2009

O dia de hoje...



Também é bom começar o dia com um grande escritor e, se o quisermos nosso, nada melhor do que abrir Camilo. Ele é o companheiro por excelência, depositário da alma portuguesa. José Régio tinha-o à cabeceira, nos últimos dias de vida. Consola e embala os sofredores; as lágrimas que provoca são lágrimas abençoadas.

Está aí acima a imagem da capa da 2ª edição de um romance, Amor de Perdição, que vale o que vale a Lírica de Camões e o , de Nobre –isso entende quem nasceu por aqui... Uma 2ª edição, na terra de Balzac e Proust!... É justo e envaidece.

Mas o que me traz é a seguinte passagem, d’ A Viúva do Enforcado, novela que encheu as primeiras horas da minha manhã. O herói, o jovem Guilherme Nogueira, aprendiz de ourives-gravador, diz, assim, a Feliciana Pereira, mãe de Teresa de Jesus, a sua paixão nascente: ‘meu pai é um ourives pobre, minha Senhora'. E a Feliciana, que a beleza das obras de Guilherme deslumbrara, responde: 'Pobre é o Demo, Deus me perdoe!, quem tem a graça de Deus não é pobre'.

A graça de Deus: o talento de Guilherme, o génio do ourives... E lembrei, no final da versão cinematográfica do Doutor Jivago, de David Lean, a rapariguinha da balalaica, a filha de Jivago... E o tio, a perguntar-lhe:
-Quem te ensinou a tocar tão bem?
E ela:
-This is a gift

É um dom... E lembrei o pobre Camilo, que mandava remendar as calças à filha Bernardina Amélia, porque não tinha dinheiro para comprar outras. E escrevia, escrevia, na noite de S. Miguel de Seide, à luz do candeeiro de azeite... Sustentavam-no a graça, o dom, o génio... Talvez, muito possivelmente; enchiam-lhe os dias e o coração, justificavam-lhe a vida. E foi o que nos deixou: as formidáveis obras de um louco iluminado –que enchem um vazio de almas penadas, a reclamarem beleza e absoluto.

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