
Carlos Queirós (1907-1949) não é, apenas, o irmão de Ofélia, a única mulher que Fernando Pessoa terá tentado beijar (sem o conseguir, ao que parece, e por incapacidade, concluo eu, depois de ler as cartas de amor do poeta à namorada...), é, sobretudo, um poeta –e um poeta admirável. A poesia, que transcrevo e dá o nome ao seu primeiro de dois livros, Desaparecido, fala de “partir”, de “ser eu”, de “liberdade”... E, tantos anos depois, desperta e aquece este dia, mais um dia a viver sob o peso triturador da máquina da desumanidade, do frenesi das coisas, que nos sufocam, esmagam, banalizam. Mas a nossa alma é só de Deus -do nosso Sonho-, como dizia o marinheiro da Nau Catrineta...
Sempre que leio nos jornais:
’De casa de seus pais desapar’ceu...’
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.
Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.
Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.
Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-Livre o instinto, em vez de coagido.
‘De casa de seus pais desapar’ceu...’
Eu, o feliz desapar´cido!
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