sábado, 2 de janeiro de 2010

Um poema de Eugénio de Andrade a iluminar os dias cinzentos...

óleo de Chagal



Os Amantes sem dinheiro



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham legendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos românticos
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos,
e deslumbrado penetrava nos espaços
.




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