sábado, 9 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -XV

Inesperadamente, Lorenza aceitou ir às ilhas. Andrea tinha-lhe dito que queria devolver-lhe o diário e falar dele. Lorenza respondeu-lhe que não tinha importância mas que estava bem, e apareceu-lhe esplêndida e a rir. Apertou-lhe a mão, encostou-se à amurada do barco e perguntou:
— Onde é que me levas?
— Às ilhas...
-Isso já eu sabia. Mas a qual: Murano, Burano, Torcello?
Ele riu-se e pôs-lhe a mão no ombro:
— Levo-te por aí. Não queres?
— Desde que não me trates mal.
O barco era o do meio-dia e trinta e cinco, um vaporetto pequenino, que servia a gente de Murano e de Burano que trabalhava em Veneza. «Carta Venezia?», perguntava o cobrador, e picava os bilhetes. O barulho dos motores e as vibrações embalavam os passageiros, o barco inclinava-se, ora para um lado ora para o outro. Andrea e Lorenza viviam uma aventura: a viagem às ilhas. Tinham lá ido muitas vezes, mas aquela era uma viagem especial. Lorenza e Andrea, desejavam que o fosse, que acontecesse qualquer coisa e se tornasse mais fácil perceberem o que os aproximava. Era, afinal, a primeira viagem.
— Hei-de vir para aqui — disse Andrea, quando passaram em frente do cemitério da ilha de S. Michele.
-És tolo!
— Se morrer, quero ficar em Veneza.
— Lá que morres, não duvides!
— Esta é a nossa cidade!
Lorenza abanou os ombros:
— Tanto me faz, a minha cidade é uma qualquer.
E levantou os olhos para ele e viu-o desconsolado e pensou que não estava mais desconsolado do que ela. Dissera aquelas coisas porque sentia uma grande tristeza. Gostaria de acreditar nele e naquela viagem, mas não foi capaz de evitar acrescentar:
— Qualquer terra é a nossa terra. Não há nenhuma que nos dê mais do que isto.
Sabia que ele lhe queria dizer que estava disposto a dar-se-lhe inteiro, a morrer por ela, a pôr-se, ali, ao seu lado, diante de S. Michele, à espera da morte, a ver se ela percebia que a amava. Ia, ao lado dela, só porque gostava dela? E dera-lhe uma desilusão: mostrara-se-lhe como se o não compreendesse. E veio-lhe, de dentro, uma vontade de rir que a surpreendeu e lhe pareceu despropositada: era egoísmo, o prazer de saber que, para ele, existiam só duas coisas: ela e Veneza e que, também ele, dependia dela. Deu uma gargalhada e puxou-lhe o casaco, puxou-o, e quase que meteu o nariz no casaco dele.
— Veneza, a Laguna — disse-lho, porque não queria que ele tivesse ilusões, já o estimava demasiado para o deixar no engano —, são como tudo o resto! Não julgues que são, diferentes. Tu é que andas sempre a imaginar.

O vaporetto seguia o seu caminho, deixava para trás as ilhas desertas, as gaivotas, pachorrento e tranquilo.
— Não é verdade que ande a imaginar. Gosto muito de ir aqui contigo.
— E depois? Não é por isso que queres morrer e ser sepultado em S. Michele...
— Eu não quero morrer. E, se morrer, quero ficar ao pé de ti.
— E eu onde é que estarei? — perguntou Lorenza, a sorrir, mas a olhar para outro sítio, porque tinha vergonha de sorrir, de deixar ver que estava contente porque ele gostava dela.
— Ao pé de mim...
E Lorenza mexeu-lhe outra vez na banda do casaco, riu-se, agora para ele, a ver se ele se ria para ela:
— Isso ainda havemos de ver!
Depois, desviou o olhar. Mas Andrea via o seu perfil de maçã camoesa, a boca encarnada, os olhos azuis, cheios de alegria.
Chegou-se o vaporetto, a Burano, — deixara para trás o farol branco, de Murano e atravessara o canal de Mazzorbo — e apareceram-lhes um urso de pelúcia, pendurado de um barco e a cor das casas.
— Olha este urso! — exclamou Andrea.
O, urso estava ali, ao sabor do tempo. Perdera a cor e tinha falhas na pelúcia. A água ia-lhe comendo os pés.
— É a mascote deles — disse Lorenza, a brincar.
— Pobre mascote, que apodrece. Se gostassem do bicho, deviam conservá-lo, impedir que ficasse sozinho. Deixaram-no morrer e agora o que é que têm?
— Olha as cores, tão lindas!
E queria levá-lo para as cores, queria tirá-lo de onde ele estava — porque, assim, ia saindo de onde estava, queria que ele visse Burano e se esquecesse do resto. Queria que ele visse o que ela via e que isso lhe desse alegria — naquele momento era só isso que ela queria: que ele se sentisse contente, deixasse, o urso e a pelúcia ratada e não pensasse, e acreditasse naquilo que o empurrava para ela, que era só deles os dois.

A ilha surgira-lhes, a meio da água mansa e oleosa da Laguna, com as casas vermelhas, azuis, brancas, verdes, cor-de-rosa, e agora iam entrar nela, Era um mundo vivo. Alguma vez Veneza teria sido assim?
— São lindas! Mas deixaram apodrecer o urso...
— Deixa lá o urso! Não quero pensar na morte! Não quero, pensar na morte de nada!
— Está bem. Faz de conta que somos jovens e bonitos como esta aldeia.
— E somos! Pelo menos..., pelo menos enquanto não começarmos a envelhecer!
Já em terra, depararam com a casa que fora de Moggioli, em que uma inscrição convidava os pintores a entrarem. Andrea travou-lhe o braço.
— Esta é uma ilha de artistas e eu vou mostrar-te um quadro muito belo de Moggioli.
— Quem é o Moggioli?
— Quem é o Moggioli?! É um dos mestres da escola de Burano. Dos que andaram por aqui no princípio do século. Moggioli, Gino Rossi, Scopinich, Semeghini... Moggioli viveu aqui.
— Sim, fico a saber. — disse Lorenza, apoiada no seu braço. — E eram bons pintores?
No sorriso dela julgou ver que se divertia a falar daquelas coisas e, também, a satisfação de falar delas com ele.
— Eram grandes pintores! Estavam ligados aos impressionistas, mas não se agarraram senão a isto. Diante desta maravilha, limitaram-se a pintá-la. Não fizeram postais para os turistas, pintaram a realidade como podiam e como a viam.
— Estas casas? Estes canais? Estas pessoas? — perguntou Lorenza, encostando-se ainda mais a ele e olhando para todos os lados. — Onde é que aprendeste tudo isso?
— Sim, estas casas, estes canais, estas pessoas. A paz e a naturalidade.
— Que bonito! — disse ela e os olhos brilharam-lhe. Parada e agarrada a ele, sem o largar, parecia encantada, deslumbrada.
— Chegámos — disse Andrea, a apontar para um café.
Logo à esquerda da porta, metido numa moldura envidraçada, estava o retrato de uma mulher. O rosto ligeiramente inclinado, os olhos que pareciam olhar para dentro, a boca desenhada, a transparência que sobressaía dos tons escuros, indicavam determinação e fragilidade, doçura e pressentimento, reserva e generosidade. E Lorenza comentou:
— É uma pessoa triste...
— Não. É uma pessoa séria. Não deve ter enganado ninguém. Mostrou-se como era. Até o pintor a viu como ela era. Se calhar, gostava da vida, mas não tinha ilusões.
— A minha avó. — esclareceu o dono do café, que os ouvira — Está aí, desde que me lembro.
-Que linda avó! — exclamou Lorenza que queria gostar daquela mulher e do que Andrea dissera dela, porque queria ser séria e queria que ele gostasse dela e não queria que as ilusões se perdessem e, naquele momento, sentia a vida, que a arrebatava.
— Era mesmo assim?
— Não sei — respondeu o proprietário —, já não a conheci. Dizem que era.
— Era com certeza!

Nesse dia, ela vibrou, viveu os momentos com intensidade. Bebeu com Andrea, abriu-se, falou, porque queria gostar de toda a gente. E talvez isso, a simpatia pelo dono do café, a ternura por Andrea, o estar desprevenida, a levasse a alguma coisa: a não estar sozinha. Às vezes, dava pulos, pintava a cara, mascarava-se, despia-se e ficava sempre sozinha. Queria agradecer a Andrea. Devia-lhe aquilo tudo: o café, os canais, as pessoas, a calma que lhe entrava pela alma, a vontade que sentia de se chegar aos outros. Se ele gostava dela era porque ela tinha qualidades e, então, podia ousar. Os amigos diziam-lhe:
— Pareces um ouriço-cacheiro!
Não era verdade: fechava-se, porque não conseguia governar-se e tinha medo que fosse culpa dela.
Ia pensando aquelas coisas, com um bocadinho de alegria; mas, naquele momento, o que queria era estar ao pé dele: se lhe pedisse — mas ele não lho pediu —, agarrava-lhe na mão e ficava com a mão dele agarrada. Continuaram a andar por Burano e chegaram ao Da Romano, ao restaurante que era uma sala comprida cheia de quadros e a cheirar bem.
-Tanta pintura! — disse Lorenza — Sabes o que me emocionou no retrato da avó do dono do café? Foi a tristeza resignada daquela mulher e, ao mesmo tempo, a força. O que é que ela quer? Quer uma coisa ou quer a outra? Quer estar ao pé de nós, ou não quer? Está viva. Vês-lhe os olhos, parece que está a sorrir para ti. Depois, escapa-se. Mete-se naquela tristeza e já não precisa de nós. Parece que anda contente, lá por uns sítios que são só dela, e que nem lhe importa a tristeza, que até goza com isso. Para onde vai tão sozinha? Eu queria ver as coisas que ela está a ver... Devem ser coisas extraordinárias!
Andrea lembrou-se da tentativa de suicídio de Lorenza, reparou na sua expressão absorta. Isolara-se, outra vez, e o retrato ajudara-a a isolar-se.
— Como é que terá vivido nesta ilha?
— Viveu como toda a gente, casou-se e teve filhos.
— Não viveu muitos anos...
— Quantos é que tu querias?
— Mais dos que ela viveu... Cinquenta?
— E não são de mais? O que se faz depois?
Ela sorriu, abriram-se-lhe os olhos, também os dela com tristeza e com uma ironia doce.
— Ficamos como o urso, cheios de rugas e com a carne a ser comida pelo tempo.
Ele não se admirou. Esperava tudo dela, até porque não a conhecia e nada era inesperado. Daquela mulher que andava com as asas a baterem, e quase a partirem-se, aceitava tudo: era ela quem procurava o fanal e encostava o peito ao fogo. Mas quis dizer-lhe:
— Este é um mundo bom, tens a Laguna, a cor das casas e dos quadros, os canais, os barcos. Podes estar sossegada.
E ela sorriu, de volta à realidade.
— Sim, é um mundo tranquilo. As pessoas são tão simples!. Falaste-me de pintores. Os outros eram como o que pintou o quadro do café?
E ele, porque a viu a falar com ele, a falar com ele para não continuar a pensar, mas a insistir; porque a viu a querer mudar de conversa, tentou, sem ser capaz de sair de onde estava — daquele milagre de a ver oferecer-se —, levá-la para outro sítio, que era o mesmo.
— Nem todos eram como o Moggioli. Nem podiam. Mas eram pintores de Burano. Trabalharam noutros sítios. Mas Burano era a ilha deles. Têm todos uma grande doçura, uma grande delicadeza... Semeghini, por exemplo. Quando não têm o dramático e a loucura de Gino Rossi...
— Também eu muitas vezes me sinto louca — disse Lorenza, que mergulhara em si mesma e parecia que o ouvia só com metade da orelha. Mas ouvia-o –Andrea era a outra metade. Gostava de estar assim, a ouvi-lo falar, aconchegada na sua voz.
— Às vezes sinto-me louca, quando complico tudo, quando quero e não quero. Quando te faço mal a ti que és meu amigo.
— Tu não me fazes mal e este não é um mundo de loucos. Certos casos são casos especiais e o sobressalto não é a loucura. Eu vejo-te, aí, como tu és, às vezes a pisar as brasas.
Agora ela escutava, atenta. Já não era só a voz e a estima dele, queria saber o que é que ele pensava dela. E Andrea ousou dizer:
— Vejo-te inquieta e à procura. Com tanta exigência! Vejo-te com o coração aos pulos. Mas olha que o mundo está aqui! Existe!
— Todos nós somos especiais. Pessoas, Coisas. Cores. Tão especiais que não se encontram, fica cada um para o seu lado. Cada coisa tem o seu sítio. Eu estou aqui e tu estás aí e a mesa está ao meio.
— Podemos tirar a mesa do meio.
— Para quê? Se calhar nem é preciso. Falaste-me hoje de coisas tão bonitas, mostraste-me coisas tão bonitas...
Ele não se conteve.
— Tu sabes que eu te amo!
Lorenza fingiu que não percebera e não disse nada. Os dedos dela acompanhavam os desenhos da toalha e a tristeza metia-se-lhe nos olhos. Andrea não deu por isso porque ela tinha os olhos baixos.
— Se tirares a mesa, ficam as cadeiras, tu sentado nessa e eu nesta. E os pratos e os copos caem ao chão.
Ele repetiu:
— Amo-te!
Lorenza levantou os olhos e ele viu o que amava nela, a delicadeza da sua juventude. Mas viu, também, uma coisa que o assustou, a frieza da sua resposta:
— Trouxeste-me aqui e devo agradecer-te.
— Eu não te trouxe para que tu me agradecesses!
— Eu sei, mas agradeço à mesma. Aprendi muitas coisas. Fiquei mais instruída. Mostraste-me Burano, Moggioli, falaste-me dos pintores.
Ele não sabia se a devia levar a sério. Estava ali a olhar para ele e a dizer aquelas coisas e quem é que sabia se ela as pensava? Havia, lá no fundo do olhar dela, ironia. Não podia acreditar que estivesse a troçar dele. Por detrás da ironia — e conseguia vê-lo —, havia uma pessoa séria: uma rapariga generosa que ficava presa no barro que ainda era, ainda não se formara e era a alma dela que empurrava o barro e procurava a forma. E, por isso, porque compreendia as dificuldades de Lorenza, disse-lhe:
— Ainda bem que gostaste, vai ser tudo mais simples.
Enganava-se. Lorenza falava assim para evitar responder-lhe. Tinha medo de o deixar entrar onde não devia. Ficara-lhe pendurado das mãos, o que dissera: «Amo-te! », e, agora, não podia voltar atrás e retirar a frase. Comprometera-se definitivamente. E Lorenza não queria. De que fugia? De Andrea. E, no entanto, agarrava-se a ele. E perguntou-lhe:
— De verdade? Ou ficaste aborrecido?
— Com o quê?
E Lorenza sentiu necessidade de lhe explicar:
— Sabes que sou maluca. Leste o meu diário. Não fiques triste. Detesto ferir os outros e a ti mais do que a todos.
Ela não o feria, impacientava-o. Estava, apenas, a recusar-se, a esconder-se, a esquivar-se. E, se alguma coisa o podia incomodar, era o afecto dela. Parecia que tinha pena dele. E mais uma vez se enganava, Lorenza não tinha pena de Andrea, tinha pena de si. E a tristeza que Andrea julgava ver nos olhos de Lorenza era verdadeira: o desgosto de não o amar como ele a amava. E ficava-lhe essa tristeza, em que começava a desconfiança de si própria. Metia-se dentro dela e fechava os olhos para não o ver.
E ele, que também não queria que ela se fosse embora, disse:
— O teu diário é verdadeiro e tem passagens extraordinárias.

Lorenza olhou para ele, a ver se realmente pensava o que dizia e compreendera o que ela tinha escrito no caderno. E, porque não tinha a certeza e o que tinha escrito no caderno era ela, porque tinha medo que ninguém a entendesse e tinha vergonha do que tinha escrito:
— Acabei-o. Não vou continuar. Não vale a pena. Começou e acabou. Tudo começa e acaba e a gente até se cansa do que faz. Era uma brincadeira. Escrevia as coisas que tu leste e ficava convencida de que fizera alguma coisa. Depois, fui percebendo que eram só páginas escritas. Por que é que o fazia? Sabes o que pensava às vezes? Pensava que a tinta que punha em cima do papel, as letras que desenhava, umas diferentes das outras, talvez fizessem um milagre e eu deixasse de me sentir sozinha. Outras vezes, ficava contente a desenhá-las e a pensar que era melhor assim porque não havia mais nada e, enquanto ia desenhando as letras, podia esquecer-me do resto, gostar das letras e do que escrevia sobre mim. Eis a razão.
Lorenza dissera aquelas coisas com muita segurança. Afligiu-o a frieza dela, a indiferença com que falava de si própria e aceitava a infelicidade.
— Como é que podes deixar de escrever um diário que és tu? Não te queres? Se te acompanhava, por que é que o queres abandonar?
— Abandoná-lo? Pôr de parte esse caderno? Acompanhava-me? Sim, talvez me acompanhasse. Até onde podia... Pobre caderno!

Ela não queria, mas ele pensou-o: sentiu-se a escorregar, numa situação que não dominava, e preferiu resolvê-la daquele modo: imaginar que Lorenza o mandava embora. E isso aliviava-o, libertava-o. De facto, no que disse, havia como que a esperança de que ela concordasse:
— Achas, que devemos afastar-nos? Para sempre?
Era uma frase melodramática, desmedida, que ajudou Lorenza. Se ele dizia aquilo, era porque tinha medo dela, também ele tinha medo. E, então, mais valia que fosse ela a conduzir. Não queria que ele se fosse embora para sempre, isso nunca lhe passara pela cabeça. O melhor era não decidirem, deixarem passar o tempo, ganharem tempo
— É melhor esperar que eu caia em mim e possa perceber o que acontece.
-E eu?
-Não sei.
-Eu espero.

Amar era era uma pesada obrigação. Andrea trouxera-a às ilhas, mostrara-lhe o quadro de Moggioli e o senhor do café. No fim do almoço iriam olhar a Laguna e o barco que vinha de Tre Porti e metia o casco branco por entre o verde dos baixios. Se quisessem, a oriente da ilha, poderiam alugar um sandalo que os levasse a S. Francesco del Deserto. Era já tanto! Se amar fosse só a alegria daqueles momentos... Ela defendia a própria liberdade e essa, sim, era importante. Mas agradecia-lhe o que lhe dera.
-Obrigada.
-Pelo passeio?
-Não. Por tudo.


***em cima, um canal da ilha de Burano

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