domingo, 17 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro', IIª Parte, VII

... 'par com criança'... óleo de Paul Delvaux...


Era, sempre, delicado. As vezes que foi a Treviso deixou-a andar à vontade pela casa e ela, vencido o acanhamento, conduziu-se com determinação e alegria. Pensava que essa atitude ajudava Andrea e atalhava o frio daquela casa. E, em parte, não se enganou. Andrea abriu-lhe as portas, contou-lhe muitas coisas do passado, que já conhecia. Punha-se a falar e ela seguia-o, divertida com a repentina franqueza. Andrea mostrou-lhe todos os cantos e ela reparou que a espreitava a ver se estava contente. E também isso a divertia: a preocupação de Andrea em lhe ser agradável. Não sabia que o amava?
— A tua casa é muito bonita. Vê-se que tens bom gosto.
— Achas? Precisa de umas coisas. Desde que isto mudou...
E Caterina não lhe respondia porque não queria falar nisso, mas arrumava-lhe a casa e puxava-o para junto dela. Ouvia-o e encostava-se-lhe ao corpo, enquanto ele lhe mostrava velhas fotografias ou papéis de outro tempo. Eram fotografias dele e dos pais na quinta de Verona, de Roberto, papéis escritos por ele.
— Não te disse que quereria ter sido outra coisa? Escrevia apontamentos sobre isto e aquilo... Já viste o artista que se perdeu?Ela dava-lhe um beijo, não porque tivesse pena: gostava dele e enternecia-a a queixa, sabia que procurava o seu consolo.

Havia a lareira, que voltava a acender, e ficavam às vezes, os dois a conversarem, ou calados, à espera de irem deitar-se juntos. Foram momentos felizes, a casa resplandecia e não havia ninguém à volta. E Caterina, que já quase pensava ser esse o seu dever, perguntava:
— Quando é que o Roberto cá vem?
Achava que devia falar-lhe do filho. Gostar de Roberto, aproximava-os. Ela tinha consciência da precariedade da relação. Valia a pena? Ao mesmo tempo, tinha vontade de a salvar e agarrar o amor de Andrea.
— Na próxima semana. O Roberto só pode vir de quinze em quinze dias. É uma semana com a mãe e outra comigo. Há um fim-de-semana em que, eu fico sozinho e outro em que ela fica sozinha. Sabes que ele está com os meus pais.
— Sem o Roberto, custa? Vocês conseguem viver sem ele?
-Nós? Dela, não sei. O Roberto faz-me falta... sim, faz. Sem o Roberto, vivemos a vida que é possível. Depois, tenho-te a ti. Não é muito?
Ela respondeu-lhe:
-Temos estes sentimentos com que andamos: tu a gostar do Roberto e eu a gostar de ti. Achas pouco?
Ele disse:
-Nem é pouco nem é muito, é o que temos.

Depois, envergonhou-se da secura:
— Já não é pouco. Tu estás aqui, porque quiseste vir, e preocupas-te comigo. Eu gosto de ti. Estás, aqui e não sei como agradecer-te. Estás aqui a aquecer-me, não é só a lareira, e não sei como agradecer-te.
— Não precisas de agradecer. Eu não queria outra coisa.
— Querias estar ao pé de mim?
— Queria. Tu és uma pessoa de quem eu gosto e sinto-me bem ao pé de ti. O que te dou é o que tenho.
— Muito obrigada, já é muito. E tens razão, se calhar não há mais.
-Lá haver mais, há. Não há só o que eu te dou.

Caterina fitou-o e perguntou:
-O que é que há mais?
-O que está lá fora, a cidade, os campos.
Fez uma pausa e acrescentou:
-Veneza...
E como se a quisesse convencer ou quisesse convencer-se:
-As outras pessoas de quem gostamos. O que vivemos juntos e que eram os outros que nos davam, porque era com eles que o vivíamos.

Ela ficou a olhar e a reparar no esforço que fazia, diante da lareira, no meio da casa silenciosa, com ela ali ao lado — e era a ela que parecia querer dar tudo, entregar-lhe a alma e pedir-lhe que a guardasse —, procurava ir ao invés e voltar aos outros ou redescobri-los. Caterina não acreditava que ele fosse capaz, que ultrapassasse o gosto de se arrumar à margem e evitar conflitos. Mas disse-lhe:
— Então puxa por ti! Vai ver quem está lá fora!
— Porquê? Achas que não puxo?
— Sim, puxas. És generoso e não deves preocupar-te.

Ela sabia abordar as pessoas. Com as dificuldades que tinha, ia pelo meio delas e estimava-as. Andrea dizia aquelas coisas e era Caterina quem sabia conviver e não se furtava aos amigos. Mas aquela facilidade correspondia ao pouco que exigia dos outros ou ao amor por eles?
— És muito boa... –murmurou Andrea.


Não tinha a certeza de ser muito boa, mas não hostilizava as pessoas. E, talvez por isso, Roberto gostara logo de Caterina. Um dia, em Veneza, quando Andrea lho apresentou, ele deu-lhe logo a mão. Habituara-se à separação dos pais, Caterina não era uma intrusa. Enquanto, iam pela rua, ela falara de coisas naturais: das dificuldades de viver numa cidade, da alegria de ir ao cinema, das férias da Páscoa, que estavam a chegar e apertou a mão dele e Roberto sentiu-lhe o calor e viu-a a rir-se para o pai e pensou que ela poderia ser a amiga que faltava ao pai, porque, às vezes, o via sozinho e triste, e ficou contente por ir ali com ela.

Andrea voltou a trazê-lo a Veneza e, enquanto estava no hospital, Caterina e Roberto iam passear ao acaso, a dizerem o que lhes vinha à cabeça e a verem o que lhes aparecia.
— Aqui, nasceu Veneza — explicou Caterina.
— No Rialto?
— Sim, aqui.
— É bem bonito! — exclamou Roberto, debruçado da ponte.
E Caterina viu-o, interessado, com as pernas magras a saírem dos calções, o cabelo a tapar-lhe a cara e o olhar perdido no canal, os cotovelos apoiados, no corrimão e o corpo pequenino, à mercê.
— É mesmo muito bonito! — repetiu ele que se soltou da ponte, compôs a camisola e lhe estendeu a mão.
— Isso não há dúvida...
Levava-o ao lado dela, aquele cinco reis de gente, um andarilho com os olhos abertos e sempre a rir-se e a conversar e já não sabia o que fazer-lhe. Não se importava, mas era o filho de Andrea e não queria que ele dissesse que lho roubava.
— Estás cansado?
— Eu não. Porquê?
— Se calhar, falta-te o ar.
— Não falta nada, estou muito bem.

Ia ao lado dela, pelas Fondamenta dei Ormesini, frágil e confiado, e ela pensava no seu mundo de que participava. No pai, na mãe, na vida dele entre Treviso e Verona, na insegurança que lhe caíra em cima. Pensava nesse mundo em que viera meter o nariz e sentia-se, também ela, inesperadamente responsabilizada — e lá lhe voltava a curiosidade, o incorrigível interesse pelos outros. Sabia que estava de passagem, que Roberto e Andrea continuariam o caminho deles e que os cruzara apenas; mas queria conhecer aquelas criaturas, e, se pudesse, abraçá-las. dar-lhes, durante o tempo que estivessem juntos, o calor que lhe corria nas veias e a fazia ser espontânea e decidida, que era assim que ela se via, de acordo com os outros.

— Gostavas mais de estar na quinta dos teus avós? — perguntou.
— Não. Veneza é muito bonita!
— Lá isso é! — concordou Caterina.
E reparou que ele se lhe entregava e ia satisfeito, que lhe dava a mão abertamente, que iam, por ali, porque gostavam um do outro, e que não podia ser em vão: de um para o outro passava, pelo menos, o gosto de estarem juntos e de se acompanharem e isso dava-lhes alegria e divertia-os, levava-os a correrem e a rirem e a Andrea, quando os reencontrava e os via unidos como se os ligasse um segredo ou qualquer coisa que só aos dois pertencesse.
— Ai estão aí? — dizia, quando eles apareciam no sítio combinado — Julguei que se tinham perdido...

E oferecia-lhes o que havia no café. Agradecia a Caterina o que ela lhe dava — a companhia que lhe fazia a ele e a Roberto —, a fresca violência que nunca recebera, nem de Luisa, nem de Lorenza. Caterina aparecia-lhe como era, sem pedir nada. Sem pedir, aparentemente, nada. E ele retribuía-lhe.
— Muito obrigado — agradecia Roberto, quando ele lhe comprava um gelado.
E Caterina bebia o café, com o rosto virado para a criança.

“Que lindo rosto!” -pensava Andrea- “Quem jamais se me ofereceu assim?” E recordava Lorenza e as vezes em que se lhe furtara, virara a cara para o lado
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