
Morreu, aos 91 anos, de morte natural, dizem. Morreu em casa, morreu na cama. É uma maneira de morrer bem, se houvesse modos de morrer bem e a morte tivesse algum sentido. Lá isso de Salinger ter morrido de morte natural não me convence. É natural morrer? Natural é viver, apesar de condenada a vida, milagre com o absurdo dentro. Camus abre o ensaio O Mito de Sísifo com frases terríveis: “Não há senão um problema filosófico importante: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder ao problema fundamental da filosofia”. O artista pode pensar: “fica a obra”; ou, ao contrário: “nunca deixes aos outros o peso da tua vida”. E Salinger? Escreveu o que tinha a escrever e retirou-se, defendeu-se do sem pés nem cabeça quotidiano. A frase de que eu gosto mais dele é: “Todos nós crescemos mas há uns que se limitam a envelhecer”. Uma verdade e uma denúncia: nem sabemos aproveitar a viagem breve. O que ele fez, durante 91 anos, deixo isso com ele. A filha cujo livro é fácil de encontrar diz que era um malandreco, um prepotente, um ditador caseiro e que gostava de jovens mulheres. Só faltava que não gostasse! Elas são o sal da terra. Consciente do disparate de nascer para morrer, Salinger quis salvar, embelezar os dias. A importância de Salinger? A de um escritor diferente e lúcido. Acredita-o, também, a sinceridade. Os adjectivos usam-se livremente. Podemos dizer o que quisermos e confirmar um génio. Oxalá Salinger o tivesse sido. Seria uma coisa boa. The Catcher in the rye, seduziu-me: milhões de nós foram aquele herói. Salinger conseguiu o que raros conseguem: compreender as vítimas da comédia humana.
publicado, hoje, na Página de Cultura do Jornal de Notícias
Sem comentários:
Enviar um comentário