Voltaram a encontrar-se. Caterina vivia num pequeno apartamento, junto a Santa Margherita, e era ali que Andrea ia ter com ela. Depois da viagem a Ravena, tudo acontecera naturalmente. Caterina telefonara-lhe, a dizer que queria voltar a vê-lo e marcaram o encontro para o dia seguinte, quinta-feira, dia em que, como de costume, Andrea vinha a Veneza, ao Ss. Giovanni e Paolo. Ela esperou-o, à porta do hospital, a sorrir dentro do casaco azul. Estendeu-lhe a mão e ele beijou-a nas faces.
— Então?
— Olá! — respondeu ela, a perguntar-se: «Gosta de me ver?»
No regresso de Ravena, ele apanhara o comboio para Treviso e tinham-se despedido a correr. Era a primeira vez que voltavam a estar juntos e quase tinham medo disso. Pesava-lhes a intimidade a que tinham chegado tão depressa. Mas perceberam que se podiam entender: Caterina ouvia-o e perguntava-lhe coisas, animava-o. Andrea vivia momentos felizes. E também ela vivia momentos felizes. Na casa de Treviso ou no apartamento de Santa Margherita sentiam-se protegidos um pelo outro. Davam o que tinham: Caterina a vontade de lhe fazer bem, Andrea o desejo de enganar a solidão.
Foi, durante aquele tempo, complexa a sua relação. Caterina puxava-o para fora de onde ele estava, o que o aliviava e lhe dava confiança. E, se Caterina o queria, era porque ele tinha alguma coisa para lhe oferecer.
— Gostas de mim? — perguntava Caterina.
E Andrea respondia-lhe:
— Gosto muito!
Ela aceitava-o, com as fraquezas e a necessidade dela. Lisonjeava-a essa necessidade, mas afligia-a. Mais valia que ele não precisasse dela e fosse pelo seu caminho. Tinha medo de não poder dar-lhe aquilo de que ele precisava, exigia.
-Queres o absoluto?
O absoluto? — respondeu Andrea — Eu queria ser feliz.
E que felicidade ela lhe poderia dar? Caterina sabia que ele gostava da outra.
Andrea não a esquecia: mandava-lhe postais, livros. Não a procurava, mas fazia tudo para a ver. Ia aos sítios onde ela deveria estar. E, se a via no Volto, no Due Mori, com amigos que não conhecia, gente do Lido, que riam e falavam alto, ela aparecia-lhe outra vez com a boca imperfeita, os olhos magoados, a balançar de uma perna para a outra, com o copo na mão. E, quando o via, ria-se, falava. Os outros não a ouviam, continuavam a agitar-se à frente dela e a ignorá-la. Isso pensava Andrea, que pensava, também, que a alegria que Lorenza exibia era inventada, para que julgasse que ela era feliz.
Caterina às vezes assistia àquelas cenas, que repetiam muitas já conhecidas, e um dia não se conteve:
-Isto é uma história do arco-da-velha!
— É possível, mas o que é que eu posso fazer?
Caterina sabia que ele podia fazer muito poucoe que ela e os outros talvez fossem comparsas. Mas Andrea e Lorenza eram os heróis de uma história que não dominavam. E, para o aliviar, e porque sabia que lhe agradava ver-se às vezes livre dela, acrescentou:
— No próximo fim-de-semana, vou a casa dos meus pais. São dois dias!
Ele fez-lhe uma festa, sem que Lorenza visse, e sussurrou-lhe:
— Não fiques por lá! Fazes-me falta.
Tinha-lhe encostado a boca ao ouvido e fechara os olhos. Quem é que ele queria convencer? Ela ou ele próprio? Cheirava-lhe os cabelos e apertava-lhe o braço. Mas que se fosse embora não o incomodava (ele não sabia que Caterina pensava o mesmo), sentia-se de facto mais livre.
Continuava à procura de Lorenza que, se o via aproximar-se, ficava aflita e dispiratava:
— Olá, menino! Como estás? E os teus? O hospital?
Ele voltava, sempre. Com Caterina ou sozinho, ei-lo a fingir que era por acaso. Já tentara mostrar-lhe que não precisava dele, que era feliz com os seus amigos. E não desistia. Tinham-se separado ou não?
— Então? — perguntava Lorenza, antes que ele falasse.
-Nada. — respondia Andrea,
— Ai sim?
-Vou indo bem...
-Fico contente.
Diziam-se aquelas coisas, pelas tabernas, com as pessoas encostadas umas às outras, as fatias de presunto e os ovos em cima do balcão. Não gritavam, nem se insultavam, diziam em tom normal aquelas coisas, no meio do barulho dos outros. Não eram palavras extraordinárias: Deus dera-lhes só aquela linguagem. Talvez — e é muito provável —, por detrás, estivesse a vontade de se abraçarem, mas não eram capazes. Por tantas razões, que devem constar deste romance, arranhavam à porta.
Caterina vira-os muitas vezes e continuava a vê-los. Não a divertia a miséria deles. Uma vez, nas Zattere, Andrea perguntara-lhe:
— Então as letras?
E ela viu-o, a sorrir para ela, e pensou que merecia outra sorte, porque sabia que a mulher o abandonara e quem guardava o filho eram os pais dele.
— Lá vou estudando! —e ofereceu-lhe o melhor sorriso que lhe podia dar naquele momento.
Andrea fingiu que não percebera que ela sabia da sua infelicidade e respondeu:
— Ainda bem!
Ela acrescentou:
— Lá vou estudando, mas é muito melhor quando nos encontramos.
— Ai sim?
— Sim, é muito melhor! — disse Caterina, que não queria que ele tivesse medo que não gostasse dele. — Já me fartei das literaturas!
Ao lado, havia o canal da Giudecca e os barcos que lá navegavam. «Deve ter andado por aqui com a Lorenza. Tem a mania de vir a estes sítios.» Mas, emendou:
— Não é só por isso. Gosto muito de estar ao pé de ti!
— Então?
— Olá! — respondeu ela, a perguntar-se: «Gosta de me ver?»
No regresso de Ravena, ele apanhara o comboio para Treviso e tinham-se despedido a correr. Era a primeira vez que voltavam a estar juntos e quase tinham medo disso. Pesava-lhes a intimidade a que tinham chegado tão depressa. Mas perceberam que se podiam entender: Caterina ouvia-o e perguntava-lhe coisas, animava-o. Andrea vivia momentos felizes. E também ela vivia momentos felizes. Na casa de Treviso ou no apartamento de Santa Margherita sentiam-se protegidos um pelo outro. Davam o que tinham: Caterina a vontade de lhe fazer bem, Andrea o desejo de enganar a solidão.
Foi, durante aquele tempo, complexa a sua relação. Caterina puxava-o para fora de onde ele estava, o que o aliviava e lhe dava confiança. E, se Caterina o queria, era porque ele tinha alguma coisa para lhe oferecer.
— Gostas de mim? — perguntava Caterina.
E Andrea respondia-lhe:
— Gosto muito!
Ela aceitava-o, com as fraquezas e a necessidade dela. Lisonjeava-a essa necessidade, mas afligia-a. Mais valia que ele não precisasse dela e fosse pelo seu caminho. Tinha medo de não poder dar-lhe aquilo de que ele precisava, exigia.
-Queres o absoluto?
O absoluto? — respondeu Andrea — Eu queria ser feliz.
E que felicidade ela lhe poderia dar? Caterina sabia que ele gostava da outra.
Andrea não a esquecia: mandava-lhe postais, livros. Não a procurava, mas fazia tudo para a ver. Ia aos sítios onde ela deveria estar. E, se a via no Volto, no Due Mori, com amigos que não conhecia, gente do Lido, que riam e falavam alto, ela aparecia-lhe outra vez com a boca imperfeita, os olhos magoados, a balançar de uma perna para a outra, com o copo na mão. E, quando o via, ria-se, falava. Os outros não a ouviam, continuavam a agitar-se à frente dela e a ignorá-la. Isso pensava Andrea, que pensava, também, que a alegria que Lorenza exibia era inventada, para que julgasse que ela era feliz.
Caterina às vezes assistia àquelas cenas, que repetiam muitas já conhecidas, e um dia não se conteve:
-Isto é uma história do arco-da-velha!
— É possível, mas o que é que eu posso fazer?
Caterina sabia que ele podia fazer muito poucoe que ela e os outros talvez fossem comparsas. Mas Andrea e Lorenza eram os heróis de uma história que não dominavam. E, para o aliviar, e porque sabia que lhe agradava ver-se às vezes livre dela, acrescentou:
— No próximo fim-de-semana, vou a casa dos meus pais. São dois dias!
Ele fez-lhe uma festa, sem que Lorenza visse, e sussurrou-lhe:
— Não fiques por lá! Fazes-me falta.
Tinha-lhe encostado a boca ao ouvido e fechara os olhos. Quem é que ele queria convencer? Ela ou ele próprio? Cheirava-lhe os cabelos e apertava-lhe o braço. Mas que se fosse embora não o incomodava (ele não sabia que Caterina pensava o mesmo), sentia-se de facto mais livre.
Continuava à procura de Lorenza que, se o via aproximar-se, ficava aflita e dispiratava:
— Olá, menino! Como estás? E os teus? O hospital?
Ele voltava, sempre. Com Caterina ou sozinho, ei-lo a fingir que era por acaso. Já tentara mostrar-lhe que não precisava dele, que era feliz com os seus amigos. E não desistia. Tinham-se separado ou não?
— Então? — perguntava Lorenza, antes que ele falasse.
-Nada. — respondia Andrea,
— Ai sim?
-Vou indo bem...
-Fico contente.
Diziam-se aquelas coisas, pelas tabernas, com as pessoas encostadas umas às outras, as fatias de presunto e os ovos em cima do balcão. Não gritavam, nem se insultavam, diziam em tom normal aquelas coisas, no meio do barulho dos outros. Não eram palavras extraordinárias: Deus dera-lhes só aquela linguagem. Talvez — e é muito provável —, por detrás, estivesse a vontade de se abraçarem, mas não eram capazes. Por tantas razões, que devem constar deste romance, arranhavam à porta.
Caterina vira-os muitas vezes e continuava a vê-los. Não a divertia a miséria deles. Uma vez, nas Zattere, Andrea perguntara-lhe:
— Então as letras?
E ela viu-o, a sorrir para ela, e pensou que merecia outra sorte, porque sabia que a mulher o abandonara e quem guardava o filho eram os pais dele.
— Lá vou estudando! —e ofereceu-lhe o melhor sorriso que lhe podia dar naquele momento.
Andrea fingiu que não percebera que ela sabia da sua infelicidade e respondeu:
— Ainda bem!
Ela acrescentou:
— Lá vou estudando, mas é muito melhor quando nos encontramos.
— Ai sim?
— Sim, é muito melhor! — disse Caterina, que não queria que ele tivesse medo que não gostasse dele. — Já me fartei das literaturas!
Ao lado, havia o canal da Giudecca e os barcos que lá navegavam. «Deve ter andado por aqui com a Lorenza. Tem a mania de vir a estes sítios.» Mas, emendou:
— Não é só por isso. Gosto muito de estar ao pé de ti!
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