
Muito do que imaginou, provou-se depois. Outras coisas não, passaram de fantasias suas. O que é que ele sabia de Lorenza? O que é que lhe dissera? E ele pouco lhe perguntara. Envergonhava-se, não tinha a certeza de o poder fazer: o que estava disposto a dar-lhe, em troca das respostas que pedia? Quem eram os pais dela, as irmãs, os amigos? E, dele, o que é que ela sabia? Já lhe falara do divórcio, de Roberto? Já lhe falara de Luisa e do filho? Das ilusões perdidas? O que lhe confiara de si? Talvez, só, o alvoroço com que a procurava. E sentia remorsos: chegava-se-lhe, com um saco que carregava às costas, e queria que ela fosse leve, lhe pegasse nas mãos, o libertasse do saco. Exigia-lhe isso. Exigia-lho, às vezes; depois, aceitava que fosse como era, nem queria saber como é que era, bastava-lhe inventá-la: fechava os olhos e imaginava-a da maneira que lhe convinha. Afinal era ele que a levava, pela mão, para que lhe servisse. E — haveria de o perceber — andava sozinho.
Enquanto os dias corriam normalmente — o consultório, a casa, o hospital, as viagens (voltou, muitas vezes, a Veneza mas evitou telefonar-lhe e não lhe respondeu às cartas) —, foi compondo a sua figura: a de uma pequeno-burguesa com dinheiro e cheia de ambições, de vontade de ser extraordinária e, por isso, sujeita a aceitar as coisas fáceis. Não aceitara o «pinóquio»? E quantas vezes não aceitara o que os amigos da viagem à Grécia lhe teriam pedido? Não era isso o que devia ler nas suas cartas? Não escondiam e, ao mesmo tempo, revelavam a insatisfação de Lorenza e a fragilidade? Das coisas que lhe dissera, ficara-lhe essa impressão: a da insegurança. Andava, sempre, a apanhar bonés: a apanhar o que lhe deixavam, mas com a esperança e o desejo de que fosse outra coisa: qualquer coisa que valesse a pena. E via-a outra vez direita a desafiar os outros — com os olhos, que a traíam assustados. Era diferente e não cabia naquele pequeno mundo: «il piccolo mondo». Via-a, a fugir e a envergonhar-se: a desafiar os outros e com medo deles: a ver se eles não davam pela sua irreverência — e se lha deixavam: se a deixavam ir como ela ia: encostadinha a si, ao seu orgulho e à sua fome. E , se calhar, era por isso que ela o procurava: punha-se aos gritos e a provocar os outros, mas o que queria era que a encorajasse, que a ajudasse a encontrar um equilíbrio. O que ela fazia era o que podia fazer, agarrada à própria convicção: se ele lhe dissesse que ia pelo caminho certo, ficaria tranquila.
Compunha uma figura? Ou era uma figura verdadeira? Quantas vezes Lorenza parecia incapaz de corresponder ao que lhe pedia? Quantas vezes parecia vulgar e incapaz de o entender! Depois, destacava-se o rosto claro. Lorenza iluminava-se: um rosto tão aberto que não conseguia fixá-lo. E cedia à ternura e ao respeito. Lorenza mostrava-se humilde e próxima. «O que é que ela quer?», perguntava a si mesmo Andrea. Tinha medo: e se ela começasse a tratá-lo mal? Se, outra vez, se fechasse na casa do Lido, depois de ele abandonar tudo, Treviso, o dia-a-dia, o amor a Roberto? Não era mais forte do que ela e, talvez por isso, afinal, não a queria deixar. Estimava-a — amava-a? — porque se parecia com ele (ou com a pessoa que ele julgava ter sido), desejosa de outra vida, de se livrar da banalidade e (mais uma vez se aproximavam, pensa ele) com a banalidade, e a irresponsabilidade em cima. O que é que exigira à vida? E ela o que é que exigia? Quando se irritava, via a relação deles como uma demissão em comum, ele com, ela ao lado, incapazes de andarem. E ficava furioso por a ter conhecido, por não ter conhecido outra. Tornava, porém, o rosto aberto dela, branco, claro, os olhos fixos nele — e pensava que se enganara, que ela queria uma vida diferente, que não desistira, mas que estava sozinha. E sentia-se melhor: se estava sozinha, só ele a poderia ajudar. Era-lhe difícil acusá-la: gostava dos seus traços, da inocência que ainda não perdera. Eram momentos breves, mas ela entregava-se. Ou imaginava?
De qualquer maneira, nem perdoar, nem condenar era fácil. Por que é que encontrara aquele oportunista desgraçado e se dera àqueles amigos durante a viagem à Grécia? O que andara a fazer? E, realmente, que sabia do que ela andara a fazer?
— Um dia, hei-de contar-te a minha vida — dissera-lhe Lorenza e pusera-se a rir, com os cadernos espalhados em cima da mesa do café. Era no princípio, quando se tinham conhecido, uma das poucas vezes em que saíram juntos.
Andrea não insistiu: se estava a rir, não falava a sério; e, se lha queria contar, que contasse.
— Se te contar, o que é que me fazes? — E baixou os olhos. — Zangas-te comigo?
Não lhe respondeu porque não lhe pedira para lhe dizer aquelas coisas, mas pensava que fora bom que lhas dissesse. O abandono dela aquecia-lhe a alma, arrancava-o ao torpor e à indiferença. Custara-lhe a partida de Luísa, a casa sem Roberto. Habituara-se, procurara habituar-se, fechando-se na solidão, que se transformava numa caixa quente, macia, onde aparentemente se sentia bem. Tornara-se num homem prático: não fazia mais do que o necessário, não dava, de si, senão o indispensável. O equilíbrio que arranjara. Um equilíbrio tão frágil que lhe bastara ver a gabardina dela para começar a imaginá-la e a precisar dessa imaginação. E, agora, quando lhe parecia que Lorenza precisava dele, as coisas modificavam-se: voltava a querer vencer a rotina, ir além, tocar, com os outros, em zonas de que desistira.
«— Deus seja louvado!», murmurava. «Ainda bem que vieste!»
Eram os momentos em que, inebriado, corria para Lorenza de olhos fechados.
«— Conta-me a tua vida, conta-me tudo! Diz-me o que precisas! Quero-te!... »
E os próprios doentes reparavam nisso: Andrea sorria-lhes de outra maneira e parecia interessar-se mais. A imagem dela acompanhava-o, quando atravessava os corredores do hospital, ou quando telefonava a Roberto: era como se estivesse a espreitá-lo e não a queria desiludir. Depois, aquele amor — não sabia porquê — não se fechava em si mesmo: era um amor que chegava aos outros, que o empurrava para eles. Pensava: «... é como se regressasse aos tempos em que acreditava na amizade e no dever de me sacrificar...» Quando, voltava a Veneza e o vaporetto subia o Grande Canal e lhe apareciam, ao longo das margens, as casas fechadas, as gôndolas pretas que iam de uma margem para outra, as gaivotas, o movimento suave, protegido pela manhã cinzenta — às vezes, uma luz rutilante, mas sempre esquiva, distante, ainda que próxima —, sentia-se possuído por ela. Era a resposta de Lorenza, do seu corpo, que identificava com esse movimento delicado e reservado. Associara-o, sempre, a Lorenza: Veneza, o encanto e a indiferença da beleza. Veneza fora sempre, para ele, uma cidade difícil. Facilmente a apreciara e amara e criara ali amigos. Nunca se sentira mal tratado, mas sentira-se, muitas vezes, só. Alberto Memmo passeava com ele; Gabriele Trevisan nunca deixara de o esperar no Calice; Patrizia dal Col e Luciana Tosetto aceitavam encontrá-lo, quando as chamava. Mas Veneza retirava-se muitas vezes: não apenas depois das nove da noite, que era, quase todo o ano, uma hora limite: quando as praças e as ruas se esvaziavam, quando as pessoas lhe pareciam ainda perto, mas se fechavam já dentro da própria vida e não as podia acompanhar, não porque não pudesse, e não quisesse, mas porque prescindiam dele. Afastavam-se, continuando aparentemente ao pé dele: antes de se irem embora ainda o acompanhassem pelas tabernas e praças. Já estavam, porém, no seu mundo e Andrea percebia a distância. Eles eram venezianos e ele era de Treviso. Mesmo que não voltassem para casa e continuassem ao seu lado, iam por um mundo que lhes pertencia e não o ajudavam a compreendê-los: iam, amáveis mas com aquele mundo escondido, e não lhe explicavam nada. Iam — pensava — com ele, como poderiam ir com outra pessoa qualquer: iam no mundo deles e levavam uma pessoa atrás. Eram. mais pobres, mais inseguros? Talvez, e ele pensava-o — pensava que a indiferença e a distância correspondiam a uma forma de insegurança, a insegurança dos habitantes de um mundo perdido. Mas queria que o deixassem participar desse mundo, porque não tinha nenhuma certeza de que: o seu mundo não estivesse condenado. Chegava-se-lhes, com os seus problemas: não lhes falava deles, porque se acanhava, mas gostaria que os entendessem. Os outros só o ouviam até um certo ponto, até ao ponto em que lhes não exigisse resposta. Quando telefonava a Lorenza e ela fugia, quando a procurava e ela se limitava à boa educação, muitas vezes tivera vontade de nunca mais a ver, de nunca mais lhe falar. E aconteceu que, em Veneza, a não procurasse: tinha-a à mesma, sem ter de a aturar: puxava-a de dentro da alma — de onde ela lhe nascera — e, sem que o incomodasse, levava-a a Santa Maria Formosa, a Cannareggio, ao ghetto, aos sítios que preferia porque pensava que neles se não perdera Veneza e mantinha a naturalidade que procurava em Lorenza e na sua juventude, e que não encontrava porque Lorenza não era simples e Andrea confundia a naturalidade com a simplicidade e Lorenza era, muitas vezes, espontânea e verdadeira, mas sinuosa.
Enquanto os dias corriam normalmente — o consultório, a casa, o hospital, as viagens (voltou, muitas vezes, a Veneza mas evitou telefonar-lhe e não lhe respondeu às cartas) —, foi compondo a sua figura: a de uma pequeno-burguesa com dinheiro e cheia de ambições, de vontade de ser extraordinária e, por isso, sujeita a aceitar as coisas fáceis. Não aceitara o «pinóquio»? E quantas vezes não aceitara o que os amigos da viagem à Grécia lhe teriam pedido? Não era isso o que devia ler nas suas cartas? Não escondiam e, ao mesmo tempo, revelavam a insatisfação de Lorenza e a fragilidade? Das coisas que lhe dissera, ficara-lhe essa impressão: a da insegurança. Andava, sempre, a apanhar bonés: a apanhar o que lhe deixavam, mas com a esperança e o desejo de que fosse outra coisa: qualquer coisa que valesse a pena. E via-a outra vez direita a desafiar os outros — com os olhos, que a traíam assustados. Era diferente e não cabia naquele pequeno mundo: «il piccolo mondo». Via-a, a fugir e a envergonhar-se: a desafiar os outros e com medo deles: a ver se eles não davam pela sua irreverência — e se lha deixavam: se a deixavam ir como ela ia: encostadinha a si, ao seu orgulho e à sua fome. E , se calhar, era por isso que ela o procurava: punha-se aos gritos e a provocar os outros, mas o que queria era que a encorajasse, que a ajudasse a encontrar um equilíbrio. O que ela fazia era o que podia fazer, agarrada à própria convicção: se ele lhe dissesse que ia pelo caminho certo, ficaria tranquila.
Compunha uma figura? Ou era uma figura verdadeira? Quantas vezes Lorenza parecia incapaz de corresponder ao que lhe pedia? Quantas vezes parecia vulgar e incapaz de o entender! Depois, destacava-se o rosto claro. Lorenza iluminava-se: um rosto tão aberto que não conseguia fixá-lo. E cedia à ternura e ao respeito. Lorenza mostrava-se humilde e próxima. «O que é que ela quer?», perguntava a si mesmo Andrea. Tinha medo: e se ela começasse a tratá-lo mal? Se, outra vez, se fechasse na casa do Lido, depois de ele abandonar tudo, Treviso, o dia-a-dia, o amor a Roberto? Não era mais forte do que ela e, talvez por isso, afinal, não a queria deixar. Estimava-a — amava-a? — porque se parecia com ele (ou com a pessoa que ele julgava ter sido), desejosa de outra vida, de se livrar da banalidade e (mais uma vez se aproximavam, pensa ele) com a banalidade, e a irresponsabilidade em cima. O que é que exigira à vida? E ela o que é que exigia? Quando se irritava, via a relação deles como uma demissão em comum, ele com, ela ao lado, incapazes de andarem. E ficava furioso por a ter conhecido, por não ter conhecido outra. Tornava, porém, o rosto aberto dela, branco, claro, os olhos fixos nele — e pensava que se enganara, que ela queria uma vida diferente, que não desistira, mas que estava sozinha. E sentia-se melhor: se estava sozinha, só ele a poderia ajudar. Era-lhe difícil acusá-la: gostava dos seus traços, da inocência que ainda não perdera. Eram momentos breves, mas ela entregava-se. Ou imaginava?
De qualquer maneira, nem perdoar, nem condenar era fácil. Por que é que encontrara aquele oportunista desgraçado e se dera àqueles amigos durante a viagem à Grécia? O que andara a fazer? E, realmente, que sabia do que ela andara a fazer?
— Um dia, hei-de contar-te a minha vida — dissera-lhe Lorenza e pusera-se a rir, com os cadernos espalhados em cima da mesa do café. Era no princípio, quando se tinham conhecido, uma das poucas vezes em que saíram juntos.
Andrea não insistiu: se estava a rir, não falava a sério; e, se lha queria contar, que contasse.
— Se te contar, o que é que me fazes? — E baixou os olhos. — Zangas-te comigo?
Não lhe respondeu porque não lhe pedira para lhe dizer aquelas coisas, mas pensava que fora bom que lhas dissesse. O abandono dela aquecia-lhe a alma, arrancava-o ao torpor e à indiferença. Custara-lhe a partida de Luísa, a casa sem Roberto. Habituara-se, procurara habituar-se, fechando-se na solidão, que se transformava numa caixa quente, macia, onde aparentemente se sentia bem. Tornara-se num homem prático: não fazia mais do que o necessário, não dava, de si, senão o indispensável. O equilíbrio que arranjara. Um equilíbrio tão frágil que lhe bastara ver a gabardina dela para começar a imaginá-la e a precisar dessa imaginação. E, agora, quando lhe parecia que Lorenza precisava dele, as coisas modificavam-se: voltava a querer vencer a rotina, ir além, tocar, com os outros, em zonas de que desistira.
«— Deus seja louvado!», murmurava. «Ainda bem que vieste!»
Eram os momentos em que, inebriado, corria para Lorenza de olhos fechados.
«— Conta-me a tua vida, conta-me tudo! Diz-me o que precisas! Quero-te!... »
E os próprios doentes reparavam nisso: Andrea sorria-lhes de outra maneira e parecia interessar-se mais. A imagem dela acompanhava-o, quando atravessava os corredores do hospital, ou quando telefonava a Roberto: era como se estivesse a espreitá-lo e não a queria desiludir. Depois, aquele amor — não sabia porquê — não se fechava em si mesmo: era um amor que chegava aos outros, que o empurrava para eles. Pensava: «... é como se regressasse aos tempos em que acreditava na amizade e no dever de me sacrificar...» Quando, voltava a Veneza e o vaporetto subia o Grande Canal e lhe apareciam, ao longo das margens, as casas fechadas, as gôndolas pretas que iam de uma margem para outra, as gaivotas, o movimento suave, protegido pela manhã cinzenta — às vezes, uma luz rutilante, mas sempre esquiva, distante, ainda que próxima —, sentia-se possuído por ela. Era a resposta de Lorenza, do seu corpo, que identificava com esse movimento delicado e reservado. Associara-o, sempre, a Lorenza: Veneza, o encanto e a indiferença da beleza. Veneza fora sempre, para ele, uma cidade difícil. Facilmente a apreciara e amara e criara ali amigos. Nunca se sentira mal tratado, mas sentira-se, muitas vezes, só. Alberto Memmo passeava com ele; Gabriele Trevisan nunca deixara de o esperar no Calice; Patrizia dal Col e Luciana Tosetto aceitavam encontrá-lo, quando as chamava. Mas Veneza retirava-se muitas vezes: não apenas depois das nove da noite, que era, quase todo o ano, uma hora limite: quando as praças e as ruas se esvaziavam, quando as pessoas lhe pareciam ainda perto, mas se fechavam já dentro da própria vida e não as podia acompanhar, não porque não pudesse, e não quisesse, mas porque prescindiam dele. Afastavam-se, continuando aparentemente ao pé dele: antes de se irem embora ainda o acompanhassem pelas tabernas e praças. Já estavam, porém, no seu mundo e Andrea percebia a distância. Eles eram venezianos e ele era de Treviso. Mesmo que não voltassem para casa e continuassem ao seu lado, iam por um mundo que lhes pertencia e não o ajudavam a compreendê-los: iam, amáveis mas com aquele mundo escondido, e não lhe explicavam nada. Iam — pensava — com ele, como poderiam ir com outra pessoa qualquer: iam no mundo deles e levavam uma pessoa atrás. Eram. mais pobres, mais inseguros? Talvez, e ele pensava-o — pensava que a indiferença e a distância correspondiam a uma forma de insegurança, a insegurança dos habitantes de um mundo perdido. Mas queria que o deixassem participar desse mundo, porque não tinha nenhuma certeza de que: o seu mundo não estivesse condenado. Chegava-se-lhes, com os seus problemas: não lhes falava deles, porque se acanhava, mas gostaria que os entendessem. Os outros só o ouviam até um certo ponto, até ao ponto em que lhes não exigisse resposta. Quando telefonava a Lorenza e ela fugia, quando a procurava e ela se limitava à boa educação, muitas vezes tivera vontade de nunca mais a ver, de nunca mais lhe falar. E aconteceu que, em Veneza, a não procurasse: tinha-a à mesma, sem ter de a aturar: puxava-a de dentro da alma — de onde ela lhe nascera — e, sem que o incomodasse, levava-a a Santa Maria Formosa, a Cannareggio, ao ghetto, aos sítios que preferia porque pensava que neles se não perdera Veneza e mantinha a naturalidade que procurava em Lorenza e na sua juventude, e que não encontrava porque Lorenza não era simples e Andrea confundia a naturalidade com a simplicidade e Lorenza era, muitas vezes, espontânea e verdadeira, mas sinuosa.
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