quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte IX

'Os amantes', óleo de René Magritte


Não era um amor menos verdadeiro do que o de Andrea e Lorenza: era diferente, talvez mais simples. Ou mais fácil? Nem fácil, nem simples: era, como era. Tudo ia acontecendo entre eles e não sabiam até quando duraria. A generosidade de Caterina era espontânea: aparecia naquele momento. A receptividade de Andrea correspondia-lhe. E pensavam os dois que talvez nunca mais se repetisse. Procuravam ser generosos e delicados. Mas talvez o procurassem com tanto afã porque não acreditavam que durasse muito e queriam aproveitar esses momentos. Pediam também desculpa: pediam desculpa de irem tirando do outro o que tiravam, a adivinharem que, depois, haveriam de ir embora. Eram delicados: não queriam perder aquele bem inesperado e, instintivamente, queriam prolongá-lo. Não podiam deixar de agradecer um ao outro. Aí não chegava o egoísmo, o amor por eles mesmos.

— Caterina — disse-lhe, Andrea uma vez, enquanto ela tremia, abraçada e a agarrar-se a ele —, um dia eu vou-me embora. Tu vais-te embora.
— Deixa lá isso. Eu não me importo. Gosto de ti. Não gostas de mim?
— Gosto, muito.
— Então deixa-te estar aqui! — exclamou Caterina e apertou-o, com as pernas. — Sinto-me bem ao pé de ti. Enquanto eu gostar e tu gostares e pudermos estar juntos é bom. Deixa, meu amor.

Ele deixava: o corpo dela fazia-lhe bem. Se ela não se ia embora, era porque precisava dele. E Andrea precisava disso: de sentir que as pessoas precisavam dele. Dava-lho Caterina e não lho dava Lorenza, que andava sempre a olhar para ele e a fugir, parecia que a viera incomodar e que mais valia que se fosse embora. Ele deixava-se estar, aquecia-se, mas não conseguia livrar-se da ideia: se lhe abrira o seu mundo, por que é que o fizera: não por cansaço, egoísmo, farto de estar só?

-Tens a mania das doenças, tu que és médico, fartas-te de te coçar, e andas sempre às voltas com os pensamentos... –dissera-lhe, uma vez, Alberto Memmo.
— Achas?...
— Acho, sim!
— És um filósofo e estás a brincar comigo.
— Sou um pintor.
-O que é que queres? -exclamou Andrea, impaciente- Pensas na minha fraqueza? No amor por Lorenza? No modo de aceitar o que me dá Caterina? E se isso fosse a minha força? Oxalá eu fosse isso tudo, capaz de amar sem pedir nada em troca!
— Com certeza! Não temos mais.

E, como de costume — porque era assim —, Alberto fugiu. Sorriu, chegou-se para o lado, falou com outra pessoa, afastou-se e, porque Andrea tinha vergonha de o prender, conseguiu chegar à porta e esgueirar-se. Dele ficou, na ideia de Andrea, o sorriso que podia ser de troça e de compreensão. Ou as duas coisas? Um sorriso de entendimento e de incredulidade? O sorriso de quem não pode levar a sério as coisas, apesar de as compreender? De quem se diverte consigo e e sofre esse divertimento?

“Não és diferente, querias que a vida fosse mais que isto ou fôssemos capazes de não a viver assim” pensou Andrea.”Impacientas-te, não és capaz de a abandonar. Como eu e outros, apaixonas-te e desconfias: o que é esta vida? Eu digo-te: é uma coisa que nos escapa entre os dedos. Nem penso na velhice: a vida foge sempre. E se calhar é por isso que nunca ficas ao pé dos outros: tens medo que se tenha ido embora e vais atrás dela. Os outros, por mais que os ames, parecem-te parados, incapazes de seguirem o teu desejo. É por isso que achas que não estão à altura e queres que sintam que o pensas — na esperança de que saiam de onde estão, e sejam capazes de merecer a vida? Queres que eles se apercebam da vulnerabilidade. Olha que não és melhor do que nós! Quando nos deixas e vais a correr, por que é que não páras e, porque páras e fazes parte da vida, não a obrigas a ficar connosco? No fundo, queríamos ficar todos juntos e que se não perdesse o que temos: estes bocadinhos de luz. É verdade: andamos sempre a fugir, somos uns grandes egoístas! A ti o que te vale é a pintura: estás nela e ninguém pode ser insensível a essa honestidade. Gosto muito da tua pintura. És delicado e inteligente. Vê-se que sabes que na vida se tem de ser hábil. É tributo que se paga. E tu, a pagá-lo, revelas a ingenuidade. Provocas-nos assim. És um ingénuo consciente. Tenho de reconhecer que é uma escolha: vem ao encontro do que desejavas que a vida fosse: simples, quente, boa e te envolvesse e trouxesse felicidade. Não julgues que eu também não o quis; e não julgues que eu ando, no meio destas duas mulheres, a apanhar o que me dão. Não ando à esmola.”

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