terça-feira, 19 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -VIII-b

...óleo de Aldo Zari...




Eram coisas que pensava Andrea. E por que é que Caterina se preocupava com Lorenza? Por altruísmo? Por generosidade? Ou porque amava, em Andrea, aquilo que ele amava? Porque o estimava tanto que ia buscar as coisas que eram suas para as meter dentro do coração, para as entender e as transformar em coisas dela e, assim, estar mais ao pé dele e ele não se sentir sozinho? É possível que Andrea pensasse isso e que Caterina se preocupasse com Lorenza porque lhe queria agradar— porque, mais do que Lorenza, a afligisse a maneira de ser de Andrea e quisesse ajudá-lo, lembrando-lhe a outra. É possível.

O que é que sabemos dessa gente? Os heróis confirmam, ou contrariam, aquilo, que julgamos saber deles e é sempre muito pouco o que sabemos. Andamos a imaginar e eis senão quando vão por caminhos imprevistos. Acontece, assim, com as pessoas — e, se quisermos entendê-las, só nos resta segui-las, e observá-las. Saem da barriga da mãe, ou da pena do escritor, e depois dependem dos espelhos que encontram e da própria força: são vistas, e comentadas por muitos quem as vê é quem as julga, mas o primeiro não as vê da mesma maneira que o segundo. Elas, o que é que deixam ver? Mantêm a originalidade. A verdade?

Um dia, Alberto, Memmo, cuja pintura, abstracta, figurativa, depurada, barroca, dava azo a variadas interpretações, disse:
— A verdade de cada um? Talvez seja só o movimento, a coerência e a contradição, a generosidade e a avareza, a alegria e o rancor. A mistura que somos e que vai direitinha, como uma bicha, direitinha ao fim. A nossa imagem exacta, a das nossas macacadas? Essa só Deus é que deve conhecê-la. E oxalá!
Os amigos, à volta, não concordaram:
— Eh pá!, complicas tudo!

Agora, a verdade é que Caterina falava muitas vezes de Lorenza e que isso não aliviava Andrea. Caterina caía-lhe em cima com aquelas frases e ele sentia-se dominado, sentia-se a dever-lhe coisas e, apesar da companhia que ela lhe fazia, do prazer dos sentidos, da felicidade, às vezes, rebelava-se. Parecia que ela queria que pagasse o preço de não se esquecer da outra. Falava-lhe de Lorenza porque não perdoava que continuasse a pensar em Lorenza. Falava-lhe da outra como quem dissesse:

— Que medo é que eu tenho? Ama-a à vontade! Continua a pensar nela! Eu gosto de ti e queria que fosses feliz. Pensa nela à vontade, mas vem ter comigo! Eu sou muito melhor do que ela. Até sei que tu pensas nela e não deixo de te querer! É comigo que dormes! Agarra!

Por isso é que era opressiva. Andrea teria preferido que o amasse menos: na espontaneidade e no modo aberto como se lhe dava, no sacrifício, na compreensão, pesava-lhe e obrigava-o a pensar que tinha de a amar, que aquilo era uma coisa séria. Ele gostava dela mas teria preferido não pensar: não queria que nada o prendesse. Gostaria de gostar dela sem que ela lho fizesse sentir para não ficar obrigado porque ela, por sua vez, lhe mostrava que gostava dele.

E voltava Lorenza agressiva, esquiva, insegura, a imagem acalmava-o e era por isso que não deixava de pensar em Lorenza: não pedia nada a Caterina e não lhe dava nada, estava ali e podia amá-la sem problemas, tinham estabelecido aquele contrato de andarem às vezes juntos. Estas eram as coisas que Andrea pensava naqueles momentos, a agarrar-se à saudade de Lorenza e a ver se sacudia Caterina e a esquecer-se que Lorenza pesava tanto como a outra, que não andava só ao pé dele, que também não sabia dominar os sentimentos: ora lhe queria bem ora o abandonava. Pensava ele que Caterina lhe dava e lhe pedia: dava-lhe a constância e o corpo, e ele não podia ignorá-lo, não podia esquecer que ela o acompanhava e que isso o fazia feliz, não podia ignorar que ela se lhe entregava e que o dei­xava aproveitar-se, gozá-la à vontade. E tinha-a quando queria: bastava chamá-la: ela vinha e ouvia-o, deixava que a abraçasse. Dava-lhe e pedia-lhe. Mas não era nesses momentos que se sentia espoliado: ela encostava-lhe o peito, as coxas, o ventre, tinha a boca encostada à dele, respirava em cima da sua respiração, misturava o suor com o suor dele, o que cheiravam era o corpo de cada um, e gostavam — por que é que não haveria de lhe pôr, depois, a mão no ombro e ir ao lado dela? Nem podia imaginar que fosse de outra maneira. Ela sem se preocupar com ele? Ia satisfeito porque lhe dava o corpo que não queria perder e que beijava a ver se o colava ao dele e se ela entrava nele, se poderiam ser uma só pessoa, tranquilos e completos.

Mas não eram: eram amigos que se acompanhavam e não queriam afastar-se. E, dessa amizade, colhiam vantagens e, por isso — só por isso? —, andavam juntos. Caterina — e tinha de o reconhecer apesar das queixas e dos sentimentos opostos — aliviava-o de Lorenza e, quando lá ia, enchia a casa de Treviso; ele alguma coisa lhe daria, senão ela não estaria ali. Boa companhia — mas que não o afastava de Lorenza. Aliviava-o, isso sim, distraía-o às vezes. Ao pé de Caterina não pensava na outra ou lembrava-se dela só para confirmar — só para querer confirmar — que era uma história morta — mas ela voltava. Por mais que quisesse convencer-se, voltava. Repetia, para si, aquela ideia: “é uma história morta”. E a ideia durava às vezes horas, dias — mas, pouco a pouco, apagava-se e ele via-a de novo, sentia necessidade dela, porque Caterina não o sossegava e ora o acalmava ora o excitava.

Por que era assim? A amizade por Caterina, o prazer que dela recebia, a traição que era continuar a lembrar-se de Lorenza — e eram mais coisas a complicarem-lhe a vida. Mas existiam e não podia livrar-se, delas. Pensava porque queria saber, porque apesar de tudo, de não ter exigido a Luisa muitas explicações, de procurar virar as costas aos disparates de Lorenza, interessava-lhe saber. Enquanto tudo acontecera —Luisa fora embora, encontrara Lorenza e, depois, Caterina —, continuara a receber os doentes e a ir ao hospital, a cuidar de quem o procurava.

Não eram só os outros que o procuravam, ele também os procurava. Queria ajudá-los, curá-los — era a sua profissão mas, também, a curiosidade: ele, os outros, como é que aquilo era? O que é que os levava a sofrerem e a fazerem certas coisas? Que doença era aquela de que lhe falavam as, pessoas, a queixarem-se, aflitas, com o medo nos olhos? Por detrás das doenças que diagnosti­cava, ele via outras — que eram as dele e de Lorenza e de Luisa e de Caterina.

Impacientava-se: tanta doença e tanta solidão e insegurança! Por que não lhe bastava Caterina? Por que não lhe bastara Luisa? Nada era simples, nem nada fora simples: bem gostaria que lhe bastasse Caterina. Bem gostaria que lhe tivesse bastado Luisa. Quem lhe dera agarrar em Lorenza, puxar-lhe os ossos para baixo, lá do sítio por onde andava ou ele teimava em vê-Ia andar! Parecia uma pintura de Alberto Menímo, cheia de cores e linhas, irreal e muito concreta, com a ânsia de cada um e a fragilidade. Não a trazia cá para baixo, mas não, se esquecia dela. E não se, esquecia dela, porquê? Porque a dedicação de Caterina o oprimia? Porque, por mais esforços que fizesse, nunca o faria esquecer Lorenza? Porque ele ia à procura de Lorenza nela? E, a olhar-se e a olhar os outros, ficava, também, aflito: era só isso que pedia a Caterina, que lhe desse Lorenza sem que ele assumisse nenhuma responsabilidade? Que o ajudasse a afastar-se dela e ao mesmo tempo lha trouxesse? Só a queria para se livrar da outra e para não a perder? Quando procurava Caterina, sabia que queria libertar-se de Lorenza — e, enquanto o fazia, ia andando com ela: com Lorenza. Uma das ajudas que Caterina lhe dava era essa: não perder a outra e adiar o reencontro, com ela.

Isso não lhe curava a inquietação e os remorsos. Caterina dera-lhe paz, amizade, um corpo e uma companhia que o compensavam das irregularidades da outra. E o que é que ele lhe dera em troca? Andar com ela e tirar proveito? Já que não tinha querido ou não tinha sabido prender a outra, mergulhava nesta?

Interrogava-se acerca da relação com Caterina e do direito que tinha a deixar que continuasse. Mas Caterina obrigava-o a esquecer a perplexidade; girava à volta, com segurança maravilhosa: possuía-o, acariciava-o, ajudava-o a organizar a vida. Quem não a percebesse recearia — e era o caso dele — que se sacrificasse demasiado, que o seu destino fosse encher os dias de Andrea e, depois, estivesse condenada a ficar sozinha. O que não era verdade: ela também enchia os dias. Não se encontravam sempre: Caterina continuava a estudar e Andrea ia e vinha, entre Treviso e Veneza. Tinham outras coisas, não se tinham só a eles. Quando se encontravam — e eram generosos e ardentes —, cumpriam o amor, um amor verdadeiro.

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