óleo de Georges BraqueE, nessa confusão de sentimentos, decidiu ler a carta de Luísa, que adiara, convencido da inconsequência. Enganava-se.
“Acusas-me de ter escondido e de ter feito batota. Tens razão. Escondi o que nunca compreenderias –a minha liberdade. Julgava que reservava o direito a ser eu. Meu amor! Se calhar, enganei-me, deveria tê-lo sido contigo, mas é muito difícil. Quantas vezes me ouviste? Nem sequer deste por mim. O amor não é só palavras. Escaparam-te os meus gestos. E tu ias e não voltavas. Ou voltavas muito tarde, eu já estava cansada, queria dormir. Não te queria, tens razão, queria dormir! Às vezes, as pessoas estão cansadas e querem dormir. Só isso. As pessoas são iguais umas às outras. Nada de extraordinário. Não achas? Ou vais acusar-me, outra vez, de frieza, de secura? Tu também não és extraordinário. Julgavas que eu era? Julgas que és? Não, Andrea, somos gente comum. O nosso amor foi um grande amor ou foi uma história banal? Amei-te, quando esperei em ti. Depois, pouco a pouco, regressei a mim própria. De onde partimos, não é verdade? Onde voltamos, sempre, não é verdade? Talvez não me tenhas feito menos feliz do que me faria qualquer outro. Hoje, não sou uma mulher feliz, nem infeliz, sou uma mulher. Trabalho, como, durmo. E basta-me. Desiludiste-me? Sim, mas isso já passou. Já esqueci. E eu desiludi-te, eu sei. Não te culpes. Sou eu que te peço desculpa por não ser feita para ti. Mas isso é uma culpa? Devia ter pensado antes? E tu? Não devias ter pensado? Aconteceu. E, depois, um dia, já não precisavas de mim e eu já não precisava de ti. Não tinha força para te ir buscar. E, se fosse, tu virias? Duvido. Agora, que passaram estes anos, percebo melhor. De que me serve entender que o nosso amor era frágil e superficial? Carnal. E a carne cansa mais depressa do que o espírito. Dizem...”
O espírito? Andrea repetiu, para si: “cansa mais depressa do que o espírito...” Mas o que é que cansa mais depressa? O coração? Uma aliança estabelecida sabe-se lá como e onde e que une as pessoas, para sempre? Ou o desejo, que se impõe, cego? Nunca tinham falado nessas coisas, nem ele pensara que aquela mulher, independente, pragmática, quase severa –e, no entanto, ardente e generosa-, se preocupasse com elas... com essas coisas vulgares, como ela parecia querer dizer.
“Não me perguntes se sou feliz. Aliás, como irias perguntar-me? Interessa-te? Não quero que respondas à minha carta. E não me perguntes por que a escrevi. Continuaríamos a enganar-nos. Fizemos isso, durante muito tempo. Demais. Ficaram cicatrizes e tu, que és médico, sabes que as cicatrizas, às vezes, sangram. Abrem, sem nós darmos conta. As dores do corpo lava-as Deus, as da alma nunca saram. Talvez eu esteja a tentar, mas dói. Talvez procure companhia para a minha dor, queira dividi-la, agora, contigo. És, ainda, quem está mais perto. É verdade. Não me perguntes pelo homem com quem vivo. Concluo que, separados, definitivamente separados, a nossa intimidade, boa e má, muito má mesmo, nos agarrou. Sim, talvez me vingue e, afinal, me rebaixe, agora. Não tenhas pena. Conheces-me, sou orgulhosa, acusavas-me de o ser. Não temas por mim. Enganei-te? Enganaste-me? Que importa? Se abrires a janela, vês o céu azul, as nuvens. O resto vale pouco. Carpe diem. Goza o teu dia. Não há mais. Olha que foste tu quem me ensinou! Há quem escolha o ódio para destruir o que amou. É um modo de enterrar as paixões e, depois, odeiam-se com a mesma paixão com que se amaram. É ridículo e igualmente doloroso. Não quis isso.”
Hesitou. Pousou a carta. Levantou-se. Para quê continuar? Mas voltou a sentar-se e a pegar-lhe. Ela própria o dizia. Reclamava-o.
“Tu ensinaste-me! Isso e muitas outras coisas. Julgas que não? Eu escondia, realmente, assim tão bem? Não vias?! Ou não és suficientemente inteligente para ver? Ou não querias ver o que há em mim? Tu é que viravas a cara! Ias inventando! Inventaste-me! A nossa vida era uma invenção! Falsa! Custou muito libertar-me. Sofri. Ao que nos tinhas reduzido! E o que me roubaste! Dei-te o meu corpo, a minha dedicação, o meu amor! Ouve, finalmente, ouve: dei-te o meu amor! Depressa o desprezaste. Não o soubeste guardar. Tiveste medo, Andrea? Não tens remorsos? Que te ficou nas mãos? O nosso filho? De uma coisa podes estar certo: não me roubas o meu filho! E fica a saber, também, que não me resta só o meu filho, existo, respiro, vivo! Posso abrir a janela sozinha. Sem ti! E tu? Ainda poderia dizer-te que...”
Dobrou a carta e guardou-a na gaveta.
“Acusas-me de ter escondido e de ter feito batota. Tens razão. Escondi o que nunca compreenderias –a minha liberdade. Julgava que reservava o direito a ser eu. Meu amor! Se calhar, enganei-me, deveria tê-lo sido contigo, mas é muito difícil. Quantas vezes me ouviste? Nem sequer deste por mim. O amor não é só palavras. Escaparam-te os meus gestos. E tu ias e não voltavas. Ou voltavas muito tarde, eu já estava cansada, queria dormir. Não te queria, tens razão, queria dormir! Às vezes, as pessoas estão cansadas e querem dormir. Só isso. As pessoas são iguais umas às outras. Nada de extraordinário. Não achas? Ou vais acusar-me, outra vez, de frieza, de secura? Tu também não és extraordinário. Julgavas que eu era? Julgas que és? Não, Andrea, somos gente comum. O nosso amor foi um grande amor ou foi uma história banal? Amei-te, quando esperei em ti. Depois, pouco a pouco, regressei a mim própria. De onde partimos, não é verdade? Onde voltamos, sempre, não é verdade? Talvez não me tenhas feito menos feliz do que me faria qualquer outro. Hoje, não sou uma mulher feliz, nem infeliz, sou uma mulher. Trabalho, como, durmo. E basta-me. Desiludiste-me? Sim, mas isso já passou. Já esqueci. E eu desiludi-te, eu sei. Não te culpes. Sou eu que te peço desculpa por não ser feita para ti. Mas isso é uma culpa? Devia ter pensado antes? E tu? Não devias ter pensado? Aconteceu. E, depois, um dia, já não precisavas de mim e eu já não precisava de ti. Não tinha força para te ir buscar. E, se fosse, tu virias? Duvido. Agora, que passaram estes anos, percebo melhor. De que me serve entender que o nosso amor era frágil e superficial? Carnal. E a carne cansa mais depressa do que o espírito. Dizem...”
O espírito? Andrea repetiu, para si: “cansa mais depressa do que o espírito...” Mas o que é que cansa mais depressa? O coração? Uma aliança estabelecida sabe-se lá como e onde e que une as pessoas, para sempre? Ou o desejo, que se impõe, cego? Nunca tinham falado nessas coisas, nem ele pensara que aquela mulher, independente, pragmática, quase severa –e, no entanto, ardente e generosa-, se preocupasse com elas... com essas coisas vulgares, como ela parecia querer dizer.
“Não me perguntes se sou feliz. Aliás, como irias perguntar-me? Interessa-te? Não quero que respondas à minha carta. E não me perguntes por que a escrevi. Continuaríamos a enganar-nos. Fizemos isso, durante muito tempo. Demais. Ficaram cicatrizes e tu, que és médico, sabes que as cicatrizas, às vezes, sangram. Abrem, sem nós darmos conta. As dores do corpo lava-as Deus, as da alma nunca saram. Talvez eu esteja a tentar, mas dói. Talvez procure companhia para a minha dor, queira dividi-la, agora, contigo. És, ainda, quem está mais perto. É verdade. Não me perguntes pelo homem com quem vivo. Concluo que, separados, definitivamente separados, a nossa intimidade, boa e má, muito má mesmo, nos agarrou. Sim, talvez me vingue e, afinal, me rebaixe, agora. Não tenhas pena. Conheces-me, sou orgulhosa, acusavas-me de o ser. Não temas por mim. Enganei-te? Enganaste-me? Que importa? Se abrires a janela, vês o céu azul, as nuvens. O resto vale pouco. Carpe diem. Goza o teu dia. Não há mais. Olha que foste tu quem me ensinou! Há quem escolha o ódio para destruir o que amou. É um modo de enterrar as paixões e, depois, odeiam-se com a mesma paixão com que se amaram. É ridículo e igualmente doloroso. Não quis isso.”
Hesitou. Pousou a carta. Levantou-se. Para quê continuar? Mas voltou a sentar-se e a pegar-lhe. Ela própria o dizia. Reclamava-o.
“Tu ensinaste-me! Isso e muitas outras coisas. Julgas que não? Eu escondia, realmente, assim tão bem? Não vias?! Ou não és suficientemente inteligente para ver? Ou não querias ver o que há em mim? Tu é que viravas a cara! Ias inventando! Inventaste-me! A nossa vida era uma invenção! Falsa! Custou muito libertar-me. Sofri. Ao que nos tinhas reduzido! E o que me roubaste! Dei-te o meu corpo, a minha dedicação, o meu amor! Ouve, finalmente, ouve: dei-te o meu amor! Depressa o desprezaste. Não o soubeste guardar. Tiveste medo, Andrea? Não tens remorsos? Que te ficou nas mãos? O nosso filho? De uma coisa podes estar certo: não me roubas o meu filho! E fica a saber, também, que não me resta só o meu filho, existo, respiro, vivo! Posso abrir a janela sozinha. Sem ti! E tu? Ainda poderia dizer-te que...”
Dobrou a carta e guardou-a na gaveta.
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