"...quem sabe o que vai na cabeça de um homem?", Camilo ***Essas frases rimavam com as outras: compunham o tecido em que se juntavam a fragilidade e a determinação; a verborreia e a verdade; e a maneira como continuava a andar, mesmo cheia de úlceras. Eram as feridas que a iam cobrindo, porque a inconsciência dela não a defendia de nada e ela continuava a pagar o preço da vontade de sair de si. Esquecia as feridas ou escondia-as, porque a ajudavam a viver e sabia que eram a prova da sua honestidade. Mas não lhe resolviam a solidão. Ficava-lhe, sempre, a agressividade e o desejo de que gostassem dela. Era talvez isso o que levava os outros a gostarem dela. Não ignorava as dificuldades, e punha-se a rir.
Não conhecia Andrea aquela Lorenza, nem entendia por que o procurava se, tantas vezes, o recusara. Apanhava com outra luz em cheio, mas preferia evitá-la. Afinal, na viagem à Grécia, não matara a fome? Não fora feliz longe dele? E, se isso era verdade, se tinha dificuldades, se continuava a berrar, e a berrar por ele, por que não percebera que era com ele que poderia ser feliz? Comprazia-se Andrea em pensar que se ela se lhe tivesse entregado tudo teria sido diferente e que talvez fosse menos infeliz. As cartas de Lorenza compensavam-no das humilhações que ela lhe infligira. Lembrava-se da vez em que, à frente de Michele Borin, um amigo comum, lhe dissera:
— Não tenho tempo, tenho de estudar! Por que é que não procuras outros amigos?
E, depois de sorrir para o outro, pôs a mão na dele e acrescentou:
— Não leves a mal. Estou muito cansada.
Dessa vez, ficou-lhe a ideia de que Lorenza troçava. Mas, e era o pior, que precisava dele. Era o pior, por isso: porque, se precisava dele e ele gostava dela, tinha de lhe perdoar as ofensas. Desarmava-o, agarrando-lhe a mão.
Agora, escrevia-lhe, a falar-lhe das insatisfações e dos malogros. Não havia outros amigos, os amigos com quem viajara?. Ele nem sequer tinha a certeza de saber pegar-lhe. Ela chegava, com a ingenuidade, e mesmo na ironia lhe parecia pura. E o que é que ele ia fazer-lhe? Ia acreditar nela? Era tudo vago: não tinha a certeza de a querer, nem a certeza de que ela o quisesse. Ela agitava-se e, se isso o impressionava, não o convencia de que valesse a pena ficar ao lado dela. Era outro mundo que o perturbava. Quem eram os amigos, além dos dois ou três comuns? E a sua família? Onde vivia? E por que é que depois de escrever as cartas lhe fugia, fingia que não estava em casa, não o queria ver? Restavam-lhe os sinais que lhe mandava: as cartas e o que dizia ao telefone —porque, mesmo quando era educada, quando não dizia disparates, era-o excessivamente e o excesso significava qualquer coisa. Pouca coisa, porém: não chegava para o acalmar. Era capaz de mandar iguais sinais a outras pessoas: um para aqui, outro para ali. E via-se ao espelho, no espelho que os outros representavam. Que importância tinham para ela? Em S. Marco, não quisera que a compreendesse. Depois, trocara-lhe as voltas. Agora, contava-lhe as desgraças, como as contaria a qualquer pessoa. Sabia lá ela se ele a entendia! Contradições, altos e baixos, também os tinha! Mas, queria entendê-la. O seu amor acabava por vencer o medo.
Seria isso? Talvez. Ou talvez se tratasse de uma esperança muito concreta: a de sair com ela do buraco onde estava, a de, ao responder-lhe, ao ajudá-la, se ajudar. A verdade é que a ideia de acudir a Lorenza o entusiasmava e transformava numa pessoa mais decidida e mais simples.
— O Andrea não parece o mesmo... — diziam os amigos.
E não era: comportava-se de outra maneira, mas talvez não de maneira mais simples: a sua vontade, o seu entusiasmo, resvalavam, pouco a pouco, para o consentimento. Aceitaria, a iludir-se com diversões e agressões, o jogo dela.
E, um dia mais tarde, haveriam de perguntar-lhe (e ele de perguntar a si próprio):
«Achas que, ao dizeres-lhe coisas para as quais a resposta era fácil, te aproximavas dela? Achas que a ajudaste, realmente, quando te limitaste a dizer-lhe aquilo de que ela precisava para continuar a ser como era? E eras tu que ficavas contente porque tinhas feito uma boa acção? Achas que lhe fazias bem, quando a condenavas mas não te afastavas, irremediavelmente, dela? Valeu a pena? Era isso o que vocês queriam? Não lavaste as mãos e não a deixaste ir a arder e tu, cá em baixo, agarrado à tranquilidade da tua consciência, ou à tranquilidade que procuravas, mesmo que não fosse a da tua consciência?»
***desenho de Botticelli
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