segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Albert Camus morreu há 50 anos

...um humanista que escapou à lei da morte e está vivo em obras admiráveis...


A morte de Albert Camus, em 4 de Janeiro de 1960, foi um balde de água fria. Era jovem, recebera o Nobel em 1957, destacava-se como ponto de referência. Era lido e escutado, seguido. O que ficou do autor de “O Estrangeiro”? Diria que ficou a extraordinária actualidade. Um dos seus mais argutos críticos, Morvan Levesque, sublinhou-lhe duas características: nunca ter cedido à literatura de sucesso, nunca ter querido ser um autor da sua época. E, por isso mesmo, foi-o: desceu na própria angústia, na dúvida, no desespero, no sentimento do absurdo. Interpelou um Deus que considerava morto –ou jamais existente. Cresce e escreve durante e depois da segunda guerra mundial. Vê perseguir, matar, torturar milhões de homens. E testemunha, livremente. Escreve ensaios fundamentais: “O Mito de Sísifo” e “O Homem Revoltado”. Escreve romances exemplares, apaixonantes: “O Estrangeiro” e “A Peste”. Camus, sem deixar de descer no seu tempo, escapa ao jugo do seu tempo –e chega, inteiro, ao nosso. Nada se resolveu, em meio século e, hoje, como nunca, o absurdo, a ausência de Deus, a irresponsabilidade de exterminar maculam os nossos dias. Grande apaixonado do Santo russo, Dostoievski, explica Camus a personagem do mais velho dos três irmãos Karamazov, Ivan Karamazov: “o seu drama é que amava sem objecto e, recusado Deus, dedicou-o ao ser humano em nome de uma generosa cumplicidade.” Assim fez Albert Camus, “estrangeiro” num mundo dessacralizado, desumanizado, deserto e inconsequente: entregou ao outro -ao outro homem vizinho e solitário- o melhor de si: a sua confissão, a obra que continua viva e nos cabe reler e meditar. A nossa doença é a dos seus heróis: roubaram-nos o sentido do destino.
publicado, hoje, na Página de Cultura do Jornal de Notícias

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