O diário de Lorenza eram papéis onde se recriava, como se uma pessoa pudesse pegar na alma e apresentá-la. Denunciava-se. Dizia coisas que não deveria dizer. Andrea não se surpreendia. As pessoas, às vezes, levam às costas a insegurança e precisam de falar de si para se completarem. Andam aflitas e interrogam-se: «Quem sou eu? Este ou aquele?» Quando se expressam —em cartas ou diários — voltam a nascer, têm novamente a oportunidade de serem elas próprias. Talvez o que dizem seja verdade, a sua verdadeira verdade. «Eu sou este!», reconhecem, com alvoroço, a livrarem-se do tormento. Inventam-se? Reconhecem-se? Adiam as dúvidas? Todas essas hipóteses são possíveis; mas que alivia, alivia —falar de si, com ternura, ser ama-seca e, afinal, mais vale ser alguma coisa do que não ser nada. Era uma arte, como outra qualquer: procurarmos o equilíbrio fora, para podermos voltar a nós e equilibrar-nos, para podermos esquecer o desconcerto e olharmo-nos a chegar ao equilíbrio que gostaríamos que fosse o nosso. Lembrava-se do pai, que ia, de noite, ouvir música, no meio do nevoeiro, com as gotas de água que lhe prateavam o bigode, e pensava que a expressão artística era comum a todos os que acreditavam que talvez fosse possível vencer a solidão e a angústia e ser feliz. No quintal da casa de Treviso, havia um pombal e, às vezes, o pai sentava-se à frente a falar com as pombas. Não dizia nada, ficava parado à frente do pombal a olhar. Mas Andrea achava que ele falava com as pombas. E a Arte era isso: querer a paz e a harmonia das pombas, a certeza e o amor, depois de atravessar, e superar as abjecções, as vilezas e as contradições.
Lorenza falava de coisas, que lhe diziam respeito, não mentia. Falava da incompreensão e da solidão, da vontade de perceber os outros, do amor a si própria, da dificuldade de sair de onde estava. Noutras páginas —e afligia-o, porque pensava o mesmo—, escrevia: «Que horror crescer! Transformo-me, o que significa que me estrago...» Escrevia, também, acerca da morte: «... qualquer dia experimento outra vez... mas, se calhar, dói muito...» No que escrevia, havia outras coisas que o impressionavam. Por exemplo, a maneira como se humilhava: «... Tudo quanto vai por aqui não interessa a ninguém, nem a mim própria. São lamechices de uma choramingas que o que quer é que gostem dela e que anda a pedir esmola com cara de cão rafeiro. Com o focinho, não é? Eu tenho um cão e a cara dele é mais simpática do que o meu focinho. Ou queriam que fosse ao contrário? Só faltava que eu tivesse a cara e ele o focinho! Havíamos de ir a meças! Eu ando por aqui, e nem a mim mesma me sei explicar: o que é que eu posso dar aos outros, aos que andam à minha volta e aos que eu ando a cheirar? Do quentinho para o quentinho, sem ser capaz de fazer nada, e a lamentar-me. Egoísta? Comodista? Nem sequer tenho a certeza disso! Vou, por aqui, com o meu cão, cheia de ternura por ele...» E, na última página: «Vou mostrar isto a alguém. Quase de certeza que mostro...»
Andrea sentia-se responsabilizado: ela procurara-o. Ficava contente por se sentir responsabilizado: se o procurara, era porque precisava dele e, se precisava dele, era porque alguma coisa ele já lhe dera: já estava um bocadinho dentro dela, fazia parte do seu mundo. E começou a viver os, problemas de Lorenza, como se fossem os seus: imaginava a solidão, as dificuldades. Imaginava-a isolada no meio dos amigos e da família — convencido de que só ele é que a poderia compreender. Mas não sabia como: ela procurava-o e, depois, empurrava-o, abria-se e fechava-se, parecia uma amêijoa sem norte, a pôr o nariz de fora e a metê-lo para dentro. E a relação deles — o gosto de se verem — arrefecia: dir-se-ia que ela andava ali a abrir-se e a fechar-se, indiferente ao outro, que era ele, e estava ao pé dela e se ressentia. Confiara-lhe o diário para fugir? Nesses trabalhos — na vontade de a compreender e acompanhar e na confrontação com os subterfúgios dela — consumia a coragem e a paciência, o entusiasmo. Mas era, também, assim que Lorenza se resgatava e o prendia: mostrando-se como era — ou como se imaginava —, enquanto escondia o rabo e lhe fugia.
Porém, ficava o rabo de fora: deixara-o saber todas aquelas coisas: que sofria, que tentara matar-se, que não sabia o que é que havia de fazer do corpo que tinha e o corpo lhe sobrava e era pesado de mais. Como haveria de usá-lo: sentada, deitada, vestida, despida? Ou a compor os cabelos com as mãos e a ajeitar as saias, os olhos baixos, à espera de que entendessem o seu pudor, que era desejo, esperança? Andrea sentia a insegurança dela entrar-lhe no peito. Que resposta poderia dar? Como é que afastaria as dúvidas que a afligiam? O desespero, que parecia atraí-Ia? Tentara matar-se aquela criança — porque era uma criança a que estava à frente dele. Metera comprimidos pela boca abaixo ou cortara as veias? Quanto tempo é que durara o horror de se ver à espera de morrer e de que a salvassem?. A ver-se esvair, adormecer, e com vergonha de estar à espera. A dizer nomes, a torcer o lençol, a desviar os olhos dos pulsos para não ver o sangue. Quase morta e cheia de vontade que a puxassem e lhe dessem, outra vez, a vida. Que vergonha! Nem tivera coragem de morrer! Parecia que andara a brincar: que andara a ver se morria, para obrigar os, outros a irem ter com ela. Saía da morte, agarrada a quem a trazia de lá e a pedir desculpa. Contente por não ter morrido e com vergonha de não ter sabido morrer. Se quisesse, ninguém poderia impedi-Ia de morrer. Não temia a morte. Não quisera.
Coisas que contava, outras imaginava-as Andrea. Lia o diário e seguia-a para além do que lá estava escrito. Não a inventava: entre a realidade e a realidade que ele via, Lorenza mostrava-se: o suicídio falhado, o desamparo, o pânico. Tão assustada, às vezes! E o que poderia ele fazer? Chegava a ter vergonha: à frente dela sem fazer nada, a espreitar-lhe a angústia, e satisfeito porque aquela angustiada precisava dele. Absolvido por ela: já não era só ele que tinha sofrimentos, inseguranças. À sua frente, uma pessoa dependia dele. Uma pessoa que lhe abrira a alma com versos de pé-quebrado e coisas de que ele gostava: o mar, o sol e, de noite, as estrelas. E voltavam a Andrea as velhas queixas — que não eram muito velhas, conheciam-se há poucos meses — : os ressentimentos. A lembrança de quando ela não quisera saber dele. E tinha o descaramento de pensar que se tratava de uma vitória, que já não precisava de lhe pedir nada: que ela estava ali, ansiosa por se confiar, encostada ao seu peito, se deixasse.
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