quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte IX b





Essas coisas pensava Andrea. E, diante de Alberto, que fugia a sorrir e o deixava frente a Lorenza e Caterina, ia buscar o que lhe restava de confiança e respeito por si próprio.

“Gostei bastante de alguém? Foi por amor que me confiei? E o que confiei de mim? O que dei era vontade de dar? Procurava a pessoa ou o prazer?”

Vinham-lhe à cabeça Luisa, Lorenza, Caterina. Os pais e o filho. Amara de verdade? Deles, quem amara? Se Alberto Memmo voltasse atrás, ajudava-o: devia ter as mesmas dúvidas. Tinham amado muito os dois mas bem precisavam que lho dissessem. Se ninguém lhes dissesse, ficariam onde estavam, inseguros, cheios de frio.

Talvez não fosse verdade. A insegurança talvez fosse só dele. As dúvidas que voltavam sempre, a fragilidade que não curava. Esquecia-se das dúvidas dos outros e interrogava-se. Dera-se a Caterina porque estava cansado da inconstância de Lorenza? Buscara em Caterina apenas compensação? Dela quisera só calor e prazer? Mas a verdade era que ela se lhe oferecia, também parecia gozar. A culpa não era só dele. Amava-a e queria amá-la. Ela pegava-lhe na mão e beijava-o. Abria-se como uma flor. Entregava-lhe o corpo.

Caterina tinha momentos de lascívia. Nesses momentos, julgava dominá-la e logo a via escapar. Julgava dominá-la, abraçando-lhe o corpo frágil, e ela fugia-lhe abismada no próprio prazer, a tremer, os olhos fechados. Ele não dizia nada. Ela estava quieta e contente, e ele também. Deixava-se ficar. Não queria saber mais nada, preferia não saber mais nada. Esquecia-se também, afeito àquele fogo que o descansava e lhe pertencia: acendera-o. O resto seria sempre a mesma coisa: confusão.

Que importava se, com outro corpo, podiam sentir-se felizes? Eram breves instantes: logo Caterina voltava a oferecer-se e a abraçá-lo. E quando exigia que a possuísse, que as suas mãos voltassem a percorrer-lhe o corpo e as suas pernas abrissem outra vez as dela e não se cansasse de sugar-lhe a boca, Andrea achava-se usado e devassado: entrava uma pessoa no seu mundo. Aceitava: se ela gozava com isso, ele não sofria, se ela tirava dele alguma coisa, ainda bem. Parecia mesmo o amor: uma pessoa à frente da outra, a desejarem-se.

Mas não sabia se queria aquele amor. Buscara uma alegria que não o obrigasse a nada. E, com a maneira de gostar dele, de se lhe encostar e de lhe pedir que a possuísse, com a sua exigência, Caterina desequilibrava-o. Em Ravena, o que é que lhe pedira? Viera ter com ele e ele não lhe prometera nada. Agora, pedia coisas que não queria e ultrapassavam o prazer. Gostava dela como companheira, quando iam aos sítios onde se sentiam bem. Não queria que lhe pedisse mais. E pensava que mais valia estar sozinho. Caterina obrigava-o a pensar em Lorenza, quando. se queria livre e ia ter com ela a ver se a esquecia. Não esquecia. Agradecia a Caterina os momentos de felicidade mas a outra voltava.

Quando ela o afogava, o corpo agarrado ao dele e a usá-lo, pensava em Lorenza: essa não pedia nada: andava sempre a fugir, e ainda bem, porque, assim, não podia agarrá-la nem dar nada: via-a a fugir e pensava que a culpa era dela e ficava absolvido: a culpa não era dele, não podia, ela recusava-se.

E, no entanto, era o bem que lhe dava Caterina: ao mesmo tempo que lhe lembrava a outra, mostrava-lhe que Lorenza não era capaz do que ela era capaz. Gostava muito de Caterina e de estar com ela, mas, depois, vinha a outra que, aparecia, sem lhe pedir nada, a fugir dele, e ele a gostar dela assim a fugir. E parava, no meio das duas e de Luisa, dos pais, de Roberto, dos amigos, e pensava: “E eu?” Sucedia-lhe isso na barafunda que era a sua vida. Ele quem era?

Adiava a resposta. Caterina prendia-o mas Andrea precisava sempre da outra que lhe aparecia, quando lhe aparecia, com os olhos, a olharem para ele e a roupa chegada ao peito. Às vezes, puxava a gola da blusa e parecia que tinha vergonha que ele a visse. Andrea via-a à mesma, imaginava-lhe o corpo por debaixo da roupa. Era um passarinho de vidro e o papel dele vê-la a esbracejar e perdoar-lhe, dizer-lhe que já bastava o disparate em que se deixava arder? Que o seu desvario, e o sofrimento que daí lhe advinha purificava-a e do fogo nunca poderia, nem deveria, libertar-se, porque era assim?

Uma vez perguntara a Lorenza:
— Lembras-te da história da estrela e do cometa? Cruzaram-se, espreitaram-se e nunca mais voltaram a encontrar-se...
— Perderam-se de vista? Nunca mais se encontraram?

Havia ânsia no que dizia, parecia à espera de que ele se explicasse e acrescentasse qualquer coisa. A frase soou, no meio deles e depois recordaram-na com o coração apertado: tinham medo que a sua relação não passasse disso: de se espreitarem e de seguirem adiante.

-Perderam-se? — insistiu ela.

Viu-a como era: as pernas embrulhadas na saia e as mãos caídas, alta, ali ao lado. Assim, outra vez exposta, tomava-o grande tristeza: a pena de não poder curá-la, porque ela não estava bem.

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