quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro" -XIII

escultura de Degas




Enganava-se, não era isso que ela queria. Não queria que lhe mexesse. Às vezes, realmente, olhava-lhe para o corpo e media-o. Era um corpo comum, com os ombros e as pernas no sítio, o corpo de um homem magro e alto. Perturbava-a, o que era natural, porque sabia que gostava dela, e havia uma certa elegância e uma sensualidade desprevenida e intensa nos olhos fugidios. E tinha a ternura que lhe oferecia. Desejava que os seus braços a apertassem e que a sua boca se lhe entregasse e que as suas pernas a prendessem — a ver se, daquela vez, alguém a prendia e a soltava, porque, se a prendessem, libertavam-na das cadeias e da obrigação de suportar a responsabilidade da própria vida. Ela não era uma mulher fria e tinha pensamentos destes. Andrea inclinava-se e o cabelo sedoso e castanho caía-lhe em cima do nariz aquilino, e ela não sabia se o queria assim, com o desejo que lhe provocava, ou se o queria de outra maneira, sem que fosse ela a desejá-lo e fosse ele a procurá-la, dócil e dependente, porque reagia sempre a quem a agarrava e só deixava que a agarrassem durante um bocadinho, o de que precisava e lhe deixava quase sempre amargos de boca ou a boca ainda com mais sede. Por isso, fugia-lhe, e não queria fugir-lhe. Ainda há pouco lhe procurara a mão, e ele ficara quieto.
—Não gostas?— perguntara-lhe, impa­ciente, porque não atava nem desatava e o gesto que ela fizera parecia que não tinha nenhum significado, que não valia a pena fazer nada, porque nada se alterava e mais valia não se arriscar e continuar a con­tratar com os outros o mínimo calor comum, que, às vezes, até chegava e lhe deixava a impressão de ter feito qualquer coisa, de se ter sacrificado ou oferecido.
— Gosto.
E foi nesse momento que Andrea sorriu, com um sorriso que desagradou a Lorenza: pareceu-lhe que sorria a enganar o tempo, que não tinha mais nada que fazer. E ela também não foi capaz de fazer mais nada: era já demasiado o que lhe dava, tinha medo de ir além. Se lhe perguntassem a razão por que confiara o diário a Andrea, evitaria responder e, se necessário, defender-se-ia, à procura de razões, que a justificassem, ou haveria de, mostrar-se arrependida e depreciar Andrea: como poderia ouvi-Ia, compreendê-la, tão inseguro, os dedos nervosos a passarem de uma página para a outra? E, quando, sorria, de que sorria? Da inteireza das páginas ou da ingenuidade? Da ingenuidade de ela lhas confiar? O que queria dizer o sorriso? Ele julgava que era o único amigo de que precisava? Julgava que tencionava dar-lhe o que tinha dentro de si e deixar-lho? Não poderia, nunca, compreendê-la.
Isto pensava, desconfiada da alegria dele e dos seus olhos. Abria-lhe o mundo e começava a fazer as malas. Não queria obrigar-se a nada. Ele pesava-lhe. Gostava dele? Preferia não gostar nem precisar dos outros, ninguém lhe dava o que ela queria, inquietavam-na. E refugiava-se na casca, nas molas da cama e nos cobertores. O pior é que precisava de mais alguma coisa, até dele, mesmo quando não a entendia. Gostaria de lhe pagar, de o ajudar a não estar só. Era o amor que ela tinha por ele. Não era mais, nem menos. E, ao mesmo tempo que lhe vinha ternura, amizade, já se arrependia de o ter deixado saber aquelas coisas –eram de mais. Ele ficara contente e ela desconfiava do contentamento. Além disso, tinha de lhe agradecer e retribuir a simpatia. O gesto dela não fora senão aquilo: trouxera-lhe o caderno azul. E depois? Depois, tinha, à frente, o amigo e isso não podia esquecer: se lhe trouxera o caderno azul, era porque ele estava mais perto dela do que os outros — e seria difícil esquecê-lo — e era o que não perdoava: que ele a tivesse prendido. E, ao mesmo tempo, agradecia-lhe que gostasse dela. Não queria pertencer-lhe, mas, que ele estivesse, ali, disposto a receber o caderno, consolava-a, sentia-se mais leve: havia uma pessoa que olhava para as saias dela, e, se desse um pulo e as saias subissem acima dos joelhos, havia uma pessoa que diria: «Tão bonita!»
— Falas, aqui, de coisas sérias — disse Andrea. — Obrigado.
«Só faltava», pensou, «que ele dissesse: Vou ler o teu diário com muita atenção.»
E ele disse:
—Vou lê-lo com muita atenção.
Ela sabia que ele iria ler o diário, que a desejava, apesar de não lhe olhar para o corpo, ou de olhar só às vezes. E isso confortava-a: era a companhia: a companhia que (julgava ela) não desejara e, afinal, tinha. Ele era, naquele momento, e contra o que ela queria que ele pensasse, a única companhia. Depois, chegariam outras mãos que haveriam de a tocar; aquelas eram mãos diferentes: não eram capazes de largar o caderno. Que medo é que tinham aquelas mãos? Por que é que não ousavam o que as outras ousavam? Ela estava ali à espera que se mexessem: por que é que elas não se mexiam? Em que é que falhara? Se não lhe pedia que se agarrasse a ela, gostaria que ele a envolvesse: que não tivesse medo de a aconchegar. Era culpa dela? Ou era ele que era assim: que a amava tanto que tinha medo de destruir o encanto e ficava parado à espera de um milagre, que, de repente, eles os dois se livrassem do que eram e se reconhecessem no ar, abraçados um ao outro?
Era isso que a atraía: a incapacidade de Andrea ser como aqueles que ela conhecia. Parecia-lhe mais fraco, mais hesitante e, depois, apresentava-se-lhe sem se esconder e era diferente.
— Vais lê-lo com muita atenção?
E logo pensou: «Com que atenção é que vai ler o meu diário? Mais valia que não lhe tivesse emprestado.» O que ela temia era que abusasse da sua alma. Ele acalmou-a:
— És uma rapariga corajosa, que se quer ver a si própria.
Lorenza acrescentou:
-E que não tem medo de se mostrar aos outros.
O que Andrea dissera incomodara-a. Descobrira-se e revelara o desejo de que lesse o diário.
— Não me assusta nada mostrar-me aos outros! Quero lá saber! Trouxe-te o meu diário porque tu gostas de literatura!
— E isto é literatura?...
— Não!— disse Lorenza, a rir-se, não se controlava quando era sincera— Isto são os apontamentos de uma mulher!
— São os teus—desta vez pôde corrigi-la e ganhou alguma coisa, não sabia o quê, mas agradou-lhe, como se respirasse.
— Não valem nada.
— Valem muito!
Valiam tê-Ia na mão, ali, descontrolada, a rir-se e à mercê dele. Se quisesse, devolvia-lhe o caderno e não o lia.
— Ora! — exclamou ela, a defender-se.
-Queres jantar comigo?
-Pode ser. Deixa-me só fazer um telefonema.
Levantou-se e procurou uma moeda. Viu-a como ela era. Tocar-lhe, dizer-lhe que a amava? Era tão frágil! Ali, com o auscultador na mão e os sapatos rasos, a saia a desenhar-lhe a coxa, o peito pequeno e firme.
O que é que ela queria? E ele, o que é que queria? A culpa não era só dela: se o atraía, por que não lhe pegava? Por que não a tirava daquele sítio, de frente do telefone, e não a levava para a terra dele? Ela ia falando para dentro do telefone — e ele pensava que ela estava a tentar convencê-lo de que dizia coisas importantes. Queria arrancá-la àquela conversa.


Já não cabiam naquele espaço. Afligia-os, não os divertia. O mal que trocavam já não lhes dava alegria. Se descansassem! Encontrados ou desencontrados, queriam a mesma coisa: ser felizes. E a felicidade poderia passar pelo amor deles. Pensavam os dois que a felicidade podia acontecer, mas não era certa. Nem um nem o outro duvidavam: gostavam um do outro: gostavam de se encontrar e de falar, mas havia sempre uma cabra-cega: teimavam ao contrário: iam com a cabeça para onde não deviam. E depois voltavam a olhar-se magoados.
O café enchera-se de gente. Lorenza continuava a falar ao telefone. Lá fora, as luzes tinham-se acendido, a intimidade perdia-se e Andrea não a queria perder. Era um instante que talvez nunca mais se repetisse. Ah!, se pudesse agarrá-lo pelo rabo e ir com ela!
Lorenza desligou o telefone. Nem a deixou sentar, pôs o dinheiro em cima da mesa e perguntou-lhe:
— Vamos?
E lá foram os dois, no meio do nevoeiro. Foram, assim, até Santa Maria dei Miracoli. Andrea exclamou:
— Olha para isto! Esta igreja está a afundar-se!
— Pois está. Há de ir por aí abaixo...
— Que disparate!
— Não me apertes o braço. Tens a mania da intensidade! Que nos importa que a igreja caia? Não é nossa. E sei lá se vai! Não tenho a certeza, mas parece que sim. Parece que se vai enterrando na lama e que os alicerces se desfazem. O que é que tu querias? Que fosse eterna? Nem nos aquece nem arrefece.
— Podia evitar-se...
—Não. E para quê? Julgas que as coisas, duram? Não há nada que dure. Ainda não percebeste? Aflige-te a porcaria da vida? E refocilas nela? É o que tens?
Andrea, que lhe largara o braço, pensou: «Como é que sabe, tão jovem, que as coisas não duram, que só duram o tempo em que as conseguimos levar connosco?»
Ela sabia:
— Admiras-te que as coisas desapareçam? É até mais bonito: tudo vai por água abaixo, e a igreja também.
E foi ela que se virou para ele e o fixou com o rosto que ele amava:
— Tu julgas que não é assim? Que eu agora deixo que tu me agarres no braço e que podes ficar para sempre com ele? A dada altura, cansas-te ou sou eu que safo o meu braço, já estavas a apertar de mais. É assim...
E ele ficou à espera de que lhe dissesse:
«Tenho pena de ti, ainda não percebeste nada.»
Mas isso era boa vontade. Também ela ainda não percebera nada e atirava aquelas frases a ver se pegavam. Alguma razão tinha naquelas frases mas não os salvavam. Eram só as frases que trocavam. Ele deixava-a com a sua razão: que fora ele que não percebera nada. A verdade é que ela tenteava, ia pondo as mãos, uma à frente da outra. E ele também não se atrevia a dizer-lhe coisas que a pudessem assustar. Precisavam um do outro. Ou talvez amassem. Era o que tinham —e não queriam estragar o sentimento.
— Nesta cidade, nesta igreja que se afunda, na nossa amizade, há uma certa beleza, não há? –disse Andrea- Ou andamos a brincar? Ando, aqui, por acaso, e não gosto da tua companhia?
Agarrou-lhe, outra vez, no braço, e quase que lhe gritou:
— Isto é verdade!
«O quê?», pensou ela, e respondeu:
— Mais uma razão, para que tudo desapareça. A beleza não vale nada, só vale quando olhas para ela. Depois, é uma coisa vazia, uma coisa à espera de que alguém olhe para ela. Pobre beleza! Se pudesse ser feia e ter muita gente à volta, com pena! Quando é bonita, sente-se mal, faltam-lhe os que a poderiam admirar. E se não vierem ter com ela? Fica como é, com a sua beleza... Nem sabe o que há de fazer-lhe... Sobra-lhe, e sente-se sozinha. E não lhe chega a língua para se lamber a si própria. Tão sequinha..., coitadinha!
— Estás a dizer muitas, coisas...
— Achas?
Ele chegou-se-lhe.
— A beleza é real. Sem ela o que é que fazíamos? Queres que te diga a verdade? Eu gosto de ti como és, gosto da tua beleza.
— Por que é que estás a mentir? Sabes muito bem que tenho muitas dificuldades, não me digas mentiras.
Percebeu que não o queria ouvir. Dava-lhe bocadinhos e, depois, fugia: punha, entre ele e ela, a incompreensão. Valia a pena a incompreensão? O que é que iriam fazer com a incompreensão, com a recusa?
— Se nós não precisássemos de estar aqui, o que é que nos ficava?
E Lorenza, como se o não tivesse ouvido, com um sorriso de criança, a encostar-se ao ombro dele, perguntou:
— Se não estivéssemos onde?
Viu que o surpreendera e acrescentou:
— Nós estamos aqui. Que querias mais?
Não se atreveu a dizer-lhe que queria o seu amor, o seu amor absoluto.
— Somos muito exigentes. Um dia hei de contar-te.
— O que é que hás de contar-me?
— Que mais vale aceitar as coisas como elas vêm e tirar delas o que há de melhor.
— Não quero isso. Prefiro não ter nada. E tu nunca o quiseste.
Andrea pensou que ela acertara, que lhe dissera uma mentira e que a vida talvez não permitisse mais.
— Mais vale não ter nada. —repetiu Lorenza— Não é a vida que não nos acompanha, somos nós que não conseguimos estar à sua altura!
E ele olhou para aquela mulher adolescente: «Se eu ainda fosse assim...» Era Lorenza que lhe dizia aquilo, mas era, também ele que não conseguia agarrá-la. De quem a culpa? Havia boa vontade, mas ficavam por aí. Ela vinha ter com ele, com as palavras, e ele ia ter com ela, com as palavras —e ficavam parados um ao lado do outro.
Lorenza acrescentou:
— Os únicos sinais que a vida nos deixa são as pancadas que apanhamos. Achas bem?
Ia ao lado dele, tão chegada, enquanto dizia aquelas coisas não se afastara dele, e sentia-lhe o peso, e pensou que a única coisa que lhe poderia responder era que gostava dela, mas, porque não sabia se ela ficaria assustada e lhe iria recusar aquele calor, respondeu:
— Às vezes, há a felicidade.
Ela agradeceu-lhe a compreensão, voltou a olhá-lo nos olhos e disse-lhe:
— Achas que isso existe?
Tinham chegado à Fondamenta dei Tedeschi e o rosto de Lorenza estava à direita do Rialto. Brilhava no meio do nevoeiro, mais do que a luz do vaporetto que chegava lá do fundo.
— Sim, acho que existe — respondeu Andrea.
— És um optimista!
Andrea teria querido dizer-lhe que o era porque a amava e estavam ali os dois, em Veneza. Ela já lhe voltara as costas e ia a subir a ponte, o amor deles vencera aquela cidade, nobre e decadente, que os empurrava para a desistência deles próprios e, ao mesmo tempo, os provocava, porque ninguém quer morrer, muito menos diante do amor e da beleza, e um bocadinho de amor tinham um pelo outro.

Sem comentários:

Enviar um comentário