terça-feira, 26 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte XIII b

...Veneza, um poço fechado...


— Quando voltarem, hão-de ir a Treviso. Já lá estiveram alguma vez? — disse Andrea, em tom resignado e a perdoar aos dois.

Lorenza corou, hesitou em levantar-se e deixá-lo ali. Fugia-lhe, escapava-lhe, sem que ele reagisse, e agora aparecia a dizer que lhe perdoava o que não era: deixava-a ir para a montanha com quem quisesse e convidava-os a ela e a Michele para a casa de Treviso! Repetia a sinuosidade que a enervava: escapava-se, mas piscava-lhe o olho e parecia que era ela quem tinha a culpa, que não estava à altura. Acontecera outras vezes, quando, por exemplo, ela lhe dizia:
— Adeus, até à próxima...

Deixava-a. ir, não fazia nada para a impedir e despedia-se conformado:
— Então até à próxima...

Ela não era aquilo e se fosse, se rebolasse na montanha -ou nas camas das casas da montanha -, não era aquilo. Gostava dele. E o resto não deveria atingi-los. Um dia falariam nisso. Não era uma qualquer, ao acaso, à disposição. Dava aos outros — aos tais da montanha e do Brenta — o que achava que lhes cabia. Não era capaz de lhes negar porque precisava de respirar: dava-lhes um bocadinho de si para eles lhe darem o bocado deles que a aliviava, que lhe distendia o corpo e os nervos. Mas, não tinha nada que ver com o amor dela por Andrea.

Em S. Barnaba, o poço ao meio, Andrea a ser generoso como ela não queria que fosse, Michele Borin ao lado que não os largava, pensou que a relação deles fora infeliz. E teve pena de Andrea e de si própria. Teve pena dele que se fechava naquela distância e desconfiava –a sua fraqueza. Teve pena de si própria que sem ele tivera o suor de outros, corpos encostados, e adivinhava que tudo acabaria mal.

— Vão gostar! — insistiu Andrea.
~
Ela sofreu, não queria que ele se abandonasse assim. Mais uma vez, e naquele momento, queria que a intimidade deles não se corrompesse e tivessem alguma coisa à qual se agarrarem.

— Um dia destes vamos a tua casa! — aceitou Michele.

Apesar do tom ambíguo de Andrea e da impaciência que lhe provocava, gostaria de ter sido ela a dizer-lhe que iria um desses dias a Treviso. Também o tom de Michele a irritara: com que direito é que falava no plural? Não sabia que estava a mais, que a conversa era entre ela e Andrea? Ou troçava dos dois? “Um dia destes vamos a tua casa!”. Ela nunca iria com ele a casa de Andrea! E, porque queria afastar Michele, esteve quase a dizer:
“Hei-de lá ir um dia ... “

E era tão grande o desejo de anular o sarcasmo do outro que teria acrescentado: “Quando quiseres!”

Enganava-se — e enganava-se porque vivia aquelas coisas intensamente e em cada momento tudo para ela se ligava à relação com Andrea, todas as coisas estavam, no seu entender, a mais e, se não estavam, dependiam da sua relação. Michele não dizia aquilo porque os queria magoar ou meter-se ao meio. Estava de boa-fé, era amigo de Lorenza e de Andrea, sabia alguma coisa do empurra-e-puxa em que viviam e que era a relação deles. Estimava Lorenza, que conhecia há muitos anos, respeitava Andrea. Mas aquele encontro reve­lava-lhe as fraquezas deles, que lhe pareciam infantis.
— Ficamos aqui? — perguntou. — Por que não vamos dar uma volta?

Era a maneira de cortar aquilo e a sua ironia involuntária. E insistiu:
— Está um dia tão bonito! Vamos até Cannareggio, às Fondamenta!

A naturalidade de Michele ofendia Andrea: mastigava as palavras, saíam-lhe com dificuldade à frente de Lorenza, que não o ajudava. S. Barnaba era um lugar tranquilo, não havia nenhuma, razão, para sair dali. E, se Michele o queria, era porque queria afastar-se com Lorenza. Andrea não sabia quem era Michele, vira-o poucas vezes — para ele era um amigo de Lorenza, que a trouxera de casa e estava sentado ao lado dela.

Ir até Cannareggio, às Fondamenta, até era possível: agarrar em Lorenza e ir com ela por esses, sítios, sabia que ela gostava de andar por ali... Talvez até fosse mais fácil. O outro não o saberia, mas ele percebera o que ela tinha dito: que não era com Michele que ia à montanha, que era por pouco tempo, que, se ele quisesse — e isso vira-o no seu olhar, no olhar que baixara enquanto o outro falava —, iria ter com ele à casa de Treviso.

Quando fossem cada um para o seu lado, quem é que lhes dava a certeza que voltariam a encontrar-se? Na esplanada de S. Barnaba, talvez se sentissem bem. As pessoas passavam, ouviam-nas, viam-lhes as sombras, se quisessem iam até S. Margherita e não iam sozinhos porque iam com as pessoas que passavam. Mas valia a pena? Não era preferível ficarem onde estavam? Alguma vez encontrariam melhor?

E, enquanto Andrea se abismava, Lorenza levantou-se e disse:
— Eu vou para casa, já é tarde.

Andrea pensou: “Não me quer... Foi aquele palerma que estragou tudo” ... E, de facto, Michele Borin ofereceu-se para a acompanhar:
-Vamos...
— Eu fico -disse Andrea.

orenza pôs um casaco de lã sobre as costas e Michele estendeu-lhe a bolsa.
—Quando eu voltar, telefona-me... — disse a Andrea.

“Não, havia de lhe telefonar antes!... “, troçou Andrea, enquanto os outros se afastavam. Por que dissera aquilo? Que escondia o sorriso? O que queria ela? Retomar o jogo de tortura absurda? Às vezes, sentia-se cansado. Deixá-la ir embora!...

Via Lorenza e Michele a caminho de S. Margherita, ao lado um do outro, sem ele, que deixavam ali. Que fossem. Preferia que fossem e que o deixassem onde estava. Era paz que lhe davam. Mas não era verdade. Consentia que o deixassem e não ficava em paz. Via-os direitos ao Rialto e pensava que Michele tinha um quarto para os lados de S. Pantalon e que se dirigiam para lá. Ainda que lhe custasse e o não quisesse, tinha de pensar que iam para o quarto de S. Pantalon. Os remorsos viriam depois — os remorsos do mal que não conseguia deixar de pensar dela. Naquele momento não dominava a raiva: mais uma vez, o trocava por outro e da mesma maneira de quando fora à Grécia ou andara na lagoa ou subira o Brenta. E, se já o fizera, era naturalmente capaz de o repetir e de ir até mais longe, de ir para a cama com o primeiro que a chamasse. Não deveria ser novidade para ele. Como também o remorso que, depois, haveria de sentir: ela era simples, frágil e parecia que não sabia onde pousar o esqueleto, e ele imaginava, fantasia da sua mente doente, todo o mal. Talvez porque sabia que chegariam os remorsos quando voltasse a vê-la cândida, tão transparente que lhe metia medo, que o desorientava, talvez por isso mais mal ainda pensava dela e lamentava não ter sabido desfrutá-la como os outros, gozar-lhe o corpo, aproveitar-se da fraqueza. Deixara sempre as suas mãos serem delicadas e corteses. Aquela era a paga.

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