sábado, 23 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte X

Verona, praça do mercado




Fartos de se esconderem no apartamento de Caterina ou na casa de Treviso, sempre com medo que os outros os surpreendessem, voltaram a Verona. Ali, podiam estar à vontade. Caterina sugeriu, e Andrea concordou, que levassem Roberto. E foi aquele um dos instantes mais luminosos — mais simples e transparentes — que viveram juntos. Roberto ia a brincar e eles sentiam-se aliviados.

— Roberto! Tem juízo! — gritou-lhe Andrea, porque puxara o rabo a um cão e se virara a rir-se, enquanto o cão gania e mostrava os dentes. Caterina exclamou:
— Olha! Ali é a Piazza delle Erbe! Vamos ver o mercado!
— Vamos ver o mercado — disse Roberto, os olhos muito abertos e inseguro porque puxara o rabo ao cão e acrescentou: — Qual mercado?
— O mercado da fruta, das hortaliças... Há lá pássaros. Não queres ir ver?
— Quero! — retorquiu Roberto. — Leva-me!

Apareceram os guarda-sóis, as bancadas onde se ven­dia de tudo, com as pessoas à volta.
— Onde é que estão, os pássaros? — perguntou Roberto que se encostara a Andrea. E, antes que Andrea respondesse, Caterina exclamou:
-Andrea! Olha este relógio!
-Qual?
-Este! — disse Caterina.
Era um relógio sem ponteiros, de caixa de madeira, números romanos.
— É um relógio igual aos que havia em minha casa! Ofereces-me?
— Ofereço-to. Claro que te ofereço! –disse Andrea.

Recordava-se dela quando era pequenina e o espreitava. Recordava-se dela com a mesma cara redonda, os cabelos castanhos e as pernas seguras, capazes de se arranharem, de correrem. Que lhe importava a casa dela? Importava-lhe, ela, que o procurara...

-Ofereço-to — repetiu e julgou perceber na expressão de Caterina dureza a que não estava habituado: como se ela tivesse adivinhado que não lhe interessava a sua casa e queria certificar-se de que nunca seria para ele mais do que uma coisa daqueles momentos, do tempo em que andariam juntos? Sim, talvez isso.

Mas Caterina advinhara o que ele pensara e disse a Roberto, a desviar o olhar de Andrea e a pôr no que dizia todo o seu entusiasmo, como se aquele fosse filho deles:
— Nesta praça há pássaros e passarinhos, pombas e outros animais...
Roberto gritou:
— O melro!

No meio da praça, negro e luzidio, o melro do bico amarelo saltitava entre a gente, com o rabo alçado.
— O melro! — repetiu Caterina.
Roberto foi atrás dele, a ver se o apanhava, e o melro, que era mais veloz, não o deixou chegar-se e continuou a saltitar no meio das pessoas.
— Eu não consigo agarrá-lo! — exclamou Roberto.
— Não faz mal, vamos ver outras coisas...
— Está bem, mas dá cá a mão...
E continuaram a andar os três, até Caterina desabafar:
-Somos todos criaturas de Deus...
-Isso é verdade — concordou Andrea.

“O que é que procuramos um no outro,?”, pensou Caterina. “A honestidade com que, nos entregamos? O prazer? A mera companhia?”

Queria esquecer-se, de que o melro era livre, com o bico amarelo e o rabo alçado, que o rabo, agora, lhe pesava mais. Dava a Andrea a alma, o imo e tinha medo. Dizia aos amigos: “tenho força para dar e vender! “ Mas tinha medo de ficar sozinha, de que Andrea e Roberto se afastassem e aqueles fossem momentos passageiros. Sentia-se presa e assustava-se. Quisera os esses momentos em que se abrira e se entregara mas tinha direito de desconfiar da vontade, recear esquecer-se e perder-se em coisas que não valiam a pena, em situações e pessoas que talvez a não merecessem. Não por acaso escolhia. Determinada, mais imediata ou menos prevenida, nem por isso deixava de medir as escolhas e de as temer porque lhe custava abrir-se e perder o domínio de si própria. Às vezes, agitava-se a afastar o medo. Abanava-se, soltava os cabelos e ia à vida. Era quase uma violência, não lhe faltava a vontade de se desinteressar, de recolher à tranquilidade ou àquilo que não a desequilibrasse. Não era capaz: a espontaneidade, a força, o gosto de agarrar nos outros e obrigá-los a darem o que tinham empurravam-na para a frente. Nisso, que a empolgava, achava-se especialista: em levar os outros a saírem de dentro deles. E divertia-a essa ideia, essa especialidade. Era assim que saía de si e da incerteza. Enquanto forçava o outro a revelar-se, revelava-se e esquecia-se, entusiasmada e contente por ver as pessoas mexerem-se, largarem a desconfiança e o medo. Recebesse de Andrea o que recebesse, via-o sair dele, havia uma alminha que a procurava, que acreditava na sua. E ia atrás do sentimento que lhe enchia o peito. Era assim Caterina: não melhor do, que os outros, mas capaz de se arriscar.

Andrea pegou-lhe no braço:
— Tens, razão, somos todos criaturas de Deus. Agora, eu e o Roberto somos criaturas tuas, foi contigo que viemos a Verona...

Ela não sabia se ele estava a falar verdade ou a brincar mas agradeceu:
— Obrigada. Vais ver que não desiludo...
Era um agradecimento irónico: não queria desiludi-lo mas não acreditava no que ele dizia. Se calhar, dizia aquilo para se desculpar, tinha vergonha do egoísmo e precisava dela, esperava a resposta que o arrancasse das dúvidas e o obrigasse a ir atrás dela. Mas o seu amor por ele tinha um limite porque lhe faltava a respiração quando a apertavam e não queria que ele se prendesse, respeitava a liberdade dos outros. Pensou que aquela história tinha de acabar. Aceitava que fosse só um momento, da vida deles. Eram destinos cruzados com muita intensidade e nada mais. Ela era capaz de ser violenta, injusta para preservar o desejo de outras coisas. Também Andrea não se comportava de outro modo: procurava o seu corpo, deixava-a andar à volta e esquecia-a com facilidade.
— Caterina! — gritou Roberto. — É tão bonita Verona!
E ela, a olhar para os dois, suspirou, emocionada e constrangida, respondeu:
— É tão bonita! Ainda bem que viemos...

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